Além do Chapadão do Bugre

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse livro de contos exemplares começa com a história de Mário Palmério – quando viajava em suas campanhas para deputado federal pelo PTB – em direção a Medeiros, na região de Minas Gerais, proximidades da Serra da Canastra.

Contos magníficos, todos poderiam ser enquadrados na mais primorosa antologia de contistas brasileiros. Um livro marcante, traz em si toda a notoriedade de um dos maiores contistas modernos.

Como o título traz essa menção ao grande romance de Mário Palmério, o Chapadão do Bugre, vamos nos ater a alguma informação pertinente e que parece ser relevante diante do que se propõe. Além do Chapadão do Bugre desata uma parte da figura emblemática do grande Mário Palmério.

Entre esse escritor e o contista, não sendo isso nada casual, havia uma amizade que foi aventada nos anos de 1980, apesar da grande diferença de idade entre os dois escritores. Sobre isso, valeria a pena traçar alguns comentários.

Nesse tempo da relação entre os dois criadores, duas das pontas desse proposto triângulo do Noroeste de Minas Gerais, formado por Mário Palmério, José Humberto Henriques e João Guimarães Rosa, os dois primeiros mantinham palestras semanais na Hileia, uma chácara guardada por cães ferozes, água de brejo, abundante e moitas de bambuais.

Mário Palmério vivia nesse ponto do mapa, um lugar quase urbano. Esses encontros entre os dois eram acontecimentos de fim de semana. Normalmente, ali pelo sábado. Mário estava com uns setenta e poucos anos, conta Henriques.

Já havia voltado da Amazônia e maninha aquele ar de marechal de campo que sempre lhe outorgou a identidade maior que o vizir.

Para mim, era fundamental e vital esses encontros! Assim se refere ao autor de Vila dos Confins e Chapadão do Bugre. Conversavam sobre tudo, até mesmo sobre Literatura. Mário era um homem bonitão, apesar da idade avançada.

Tinha um poder mágico de imantação, uma sedução no sentido não sensual do caso, mas naquele de poder dar ao seu interlocutor a impressão de que o mundo tem mais pontas que esse triângulo proposto que se faz notar na biografia dos três.

Henriques tinha menos de trinta anos de idade nessa época e já havia publicado quatro títulos. Isso garantia um elo mais pujante entre ambos.

Ocorre que, também isso conta J Humberto Henriques, que esse tipo de história rocambolesca ou engraçada, Mário Palmério jamais lhe contava. Contava coisas até mais sóbrias. Porém, elementos de anedotas e outras coisas do gênero, ele jamais contava.

E como isso de fato aconteceu, o que se conta na história de Além do Chapadão do Bugre, Henriques ouviu quando estava sentado na cadeira do Gordo, Altamiro, natural ali das bandas do Corgo Dantas, que era um serviçal que aos dois sempre servira.

Aliás, diga-se de passagem, como sempre asseverou o contista, sentado em cadeira de barbeiro há de ser sempre o melhor ponto do planeta para se recolher material para um bom conto.

O que é necessário depois disso, se não se intrometer demais outra decisão, é saber ser contista e transformar esse material todo para que ele possa sair da cadeira do barbeiro.

Altamiro, o Gordo, me contou isso. E quem contou para ele foi Mário Palmério. Em pessoa, sentado ali, naquela mesma cadeira de barbeiro. Com o tempo, estando já debilitado pelo tempo e pelas mazelas comuns à passagem dos dias, o Gordo ia até Hileia com a finalidade de cumprir o mesmo ofício.

E ouviu mais historietas. Diz com pena Henriques que hoje em dia o Gordo não pode mais contar nada. Mário Palmério já se foi há muito tempo e o Gordo está enfermo, incapaz de ajuntar esse material todo para repassar a um contista oportunista. Assim é que se concebe e se gratifica.

Assim é que há gratidão, diz o contista, a tudo e a todos que fizeram parte dessa anarquia sem caos completo que se chama rotina da vida.

Em dias de agora, 2020, as mudanças são todas muito evidentes e visíveis. Hileia não é mais a mesma cosia. Se era quase urbana, hoje é quase rural. Todos os retratos estão aí sobre as paredes. As parede

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