Varal de Poesias: Poemas de amor e liberdade

Por CARLOS ALBERTO CHICARELI

Sobre o livro

Apesar de uma inflação acima dos 70%, o ano de 1979 foi promissor. O país destroçado pela ditadura militar carecia de seguir em frente. Então go-vernado pelo último militar, entrava para a história O Bêbado e o Equilibrista na voz de Elis Regina apressando a Anistia aos perseguidos pela política.

Os efeitos da alta inflação se faziam presentes na Vila Luzita e na Vila Suíça, dois bairros periféricos de Santo André, no ABC paulista.

Povoados por migrantes de diferentes regiões do país, se constituíam em densas aglomera-ções de alvenaria sem reboco, barracos de madeira e algumas construções já terminadas.

Entre seus moradores estavam metalúrgicos, operários da cons-trução civil, prestadores de serviço no comércio, e, entre outros, os desem-pregados. Os sinais de novos tempos sopravam forte nas duas vilas.

As greves dos metalúrgicos davam esperança de dias melhores e, entre seus líderes, surgia Lula e o projeto de um Partido dos Trabalhadores. No sindicato da categoria na vizinha São Bernardo apareciam personalidades como Eduardo Suplicy, Chico Buarque e, de novo, Elis Regina.

A censura não se aguentaria por mais tempo e Simone ganhou as paradas cantando Geraldo Vandré. “Vem, vamos embora que esperar…”.

Os ouvidos e olhos atentos de Carlos Alberto Chicareli, um garoto de quinze anos, transitavam prioritariamente entre a Vila Suíça, onde residia com os pais e um casal de irmãos, e a Vila Luzita.

Nesta os Padres Somascos realizavam trabalho direcionado aos jovens com missas em horários defini-dos e outras atividades tais como o teatro.

Sorridente, alto astral, o garoto guardava para si as impressões adquiridas na observação de uma vida difícil levada pelos pais, vizinhos e amigos, enquanto rabiscava coisas, mistura de letras de música e poesia. Queria cantar, queria escrever. Queria um lugar no mundo.

Vindo de Marialva, no Paraná, aos cinco anos de idade, Carlos Chicareli não cantou nem escreveu para sua estreia no campo das artes. Foi como ator em um auto natalino na paróquia de Nossa Senhora do Rosário que fez seu primeiro trabalho público.

Os padres viviam divididos entre o conservadoris-mo trazido da Itália e as ideias da Teologia da Libertação. Nesta havia uma tentativa de aproximação com os problemas sociais. As Três Faces, a peça teatral, uniu tradição e realidade no improvisado palco paroquial.

O centro da cena foi ocupado por situação costumeira: uma avó, enquan-to montava uma árvore de Natal, contava a história do nascimento do menino Jesus.

Simultaneamente, as laterais do palco estavam ocupadas por cenários que lembravam locais distintos: à direita de quem via, uma casa de classe alta e, à esquerda, um barraco de madeira. As cenas intercaladas repetiam alego-ricamente a situação do nascimento de Cristo.

A especulação imobiliária – re-presentada pelos personagens de classe alta – levava a tentativas de despejo dos moradores do barraco, não importando o período do ano ou as famílias que nele moravam. Carlos Chicareli foi o filho otimista na família pobre.

A repercussão do trabalho teatral foi satisfatória e empolgou o garoto, que, ficando amigo do autor e diretor da peça, logo tornou-se parceiro musi-cal. Caminho Trilhado, o poema que abre a presente coletânea, esteve pri-meiramente nos palcos do ABC e região, abrindo a peça Os Pintores.

Sinto-me honrado em ter estado presente na vida do jovem poeta nesse primeiro mo-mento e considero uma grande honra e enorme responsabilidade apresentá-lo nesta publicação que reúne os cinco primeiros livros publicados por Carlos Alberto Chicareli.

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