Sobre o livro
Vivendo para driblar a morte
Quando deixei o casebre do pistoleiro que foi contratado por um político alagoano para me matar no Rio, em 1980, já refeito do susto, e na certeza de que estava vivo, despedi-me do sicário que me ofereceu a mão leve, falsa, para cumprimentá-lo, com esta frase: “Muito prazer eu sou a vida” .
E agora, 44 anos depois desse encontro macabro, me recuperando de um AVC desde o final de 2022, escrevo sobre a vida, pois sobre a morte eu contei em outro livro, já na terceira edição, o “Muito prazer eu sou a morte”.
Neste, editado e lançado em Portugal, descrevo como morri pelas mãos do jagunço alagoano que, num ato de comiseração, desistiu da empreitada, mas contou o plano da emboscada, que reconstitui no livro.
Mal sabia o danado que me dava a chance de escrever dois livros: um sobre a morte e este agora sobre a vida, duas linhas que correm paralelas, mas só uma delas, a da vida, é interrompida, deixando um rastro de saudade ao finalizar o ciclo da existência às vezes de maneira repentina, brusca e cruel.
Como já morri na primeira história fico à vontade ou melhor, ressuscitado, para contar nesta agora os prazeres da vida e as histórias das minhas reportagens enquanto vou driblando a morte personificada nesta velha encarquilhada, rabugenta que ronda as madrugadas à procura de almas perdidas.
Não sei até quando vou me esconder desta senhora inconveniente. Sei, contudo, que um dia inevitavelmente serei tragado por ela.
Já estive muito perto das garras afiadas dessa ave de rapina traiçoeira , mas ela vacilou e eu escapuli em pleno voo para cair surfando no mar cintilante da Praia do Francês.
É como sobrevivente, pela segunda vez, que conto essas histórias de amizades na minha trajetória de 60 anos de profissão, de vida saudável, bem humorada e irreverente dos meus setenta e cinco anos anos de vida neste décimo primeiro livro. Ao longo de todo esse tempo fica a lição: vale a pena transgredir e confrontar o sistema quando a causa é nobre e justa, como você vai ver se seguir na leitura deste livro.
No “Muito prazer eu sou a morte” passei por momentos de tensão até dar o ponto final no livro quando o meu corpo, enfim, foi cremado e as cinzas levadas numa urna para o mar em Maceió pelos meus filhos e a Ana, minha companheira.
Agora, com “Muito prazer eu sou a vida”, compenso o chororô dos órfãos e da viúva com histórias às vezes alegre das minhas aventuras como repórter e das noites boêmias em Maceió, no Rio, Brasília e Portugal nas mesas dos bares que escolhi para os meus encontros e convivência com os amigos.
Em alguns dos episódios sou personagem; em outros coadjuvante. Com amigos mais diversos como os jornalistas, artistas, músicos, poetas, políticos, boêmios e vagabundos e vagabundas da noite vivenciei as boas coisas da vida. E evidentemente ao lado dos meus queridos comunistas momentos inesquecíveis e mais saborosos da vida mundana, política e profissional.
Este livro não tem a pretensão de ensinar ninguém a viver, mas o de morrer bem, tranquilo, com saúde e dignidade desde que se mantenha saudável e amante da vida para ter a prerrogativa de subir sem mágoa, feliz da vida que, de tão curta, a gente nem se dá conta que se vai tão cedo. Afinal de contas, morrer saudável não é coisa só de gente rica.
Boa sorte caro leitor/ leitora enquanto pode driblar essa bruxa feia, desengonçada, desdentada de cara esburacada e engelhada; de mortalha surrada e foice de boia fria.
Xô senhora, descola, vá bater em outra porta se está tão ansiosa à procura de uma alma perdida.
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