À Sombra da Copaíba: Yauareté Angá

Por Luiz Carlos Kovalski

Sobre o livro

A noite já assumira sua vigília. Ainda assim, para nossa surpresa, nos sentíamos bem sob seu manto lúgubre.

Mas nesse momento nossas sensações não poderiam ser medidas apenas pela expectativa inesperada de um bom jantar, de conversas interessantes, de aconchego, nem da circunstância insólita de estarmos tão afastados da civilização, sob o teto misterioso da maior floresta tropical do planeta, ao redor de labaredas bruxuleantes de matizes e desenhos que nunca se repetem.

Até aqui, nossa estabilidade emocional parecia inabalável, algo infactível até para os mais calejados pelas intempéries da existência. Mas eu não me iludia, talvez os demais também não.

Eu não tinha estrutura psíquica para suportar sem traumas, o que vivenciamos nas últimas horas, em alta escala de tensão. Medo muito próximo do pavor, angústia beirando o desespero, aflições profundas e incertezas contundentes.

Sensações tão diferentes de meu cotidiano, estável, ainda que trivial e sem graça. No entanto, não constatei sinais de trauma. Estaríamos superando? Talvez não.

Seria mais factível, que nossa enganosa fleuma estivesse em stand by, em estado de dormência, esperando o momento em que tudo desabaria, afinal, estávamos em fuga. Olhei em volta tentando captar similaridades junto ao grupo feminino.

Belas mulheres, jovens ainda, mas em seus semblantes, rictos de desencanto, talvez desamores, sonhos prematuramente desfeitos.

Possivelmente, agora apostando tudo em suas carreiras, e preencher o vazio que vem na forma de solidão, lutando desesperadamente para não sucumbir à amargura, que quando se instala, é para ficar. Talvez no cotidiano das metrópoles, não sorrissem como agora.

Não estavam tentando passar uma alegria que não sentiam, uma serenidade que não vivenciavam. Nesse momento, o que consegui medir em seus olhos e sorrisos, foi paz. Alguém estava nos fazendo um grande bem.

A Criatura, como entre nós o chamávamos, na falta de um adjetivo que lhe fizesse justiça, era nosso termostato de bom astral.

A aparente placidez nos induzia à contemplação, mas não mais temíamos a floresta, seus labirintos enganosos, nem seus seres silentes, pois uma de suas criaturas mais formidáveis, era nosso guia.

À Sombra da Copaíba. Yauareté Angá, ou Alma de Onça no idioma Nheengatu, aborda aspectos latentes da natureza humana quando submetidas a altos níveis de tensão. Algumas particularidades intrínsecas à magnífica mas insidiosa hileia são também destacadas como pano de fundo.

A diversidade fitoterápica, que pode salvar ou matar, as entidades lendárias que suprem fartamente o cabedal folclórico dos povos da floresta, alem de questões sociais delicadas, como o infanticídio indígena e tráfico de entorpecentes.

Neste cenário de estranheza, perplexidade e abandono, quem respira e pensa tenta reagir de acordo com o acervo emocional adquirido de outros nichos menos agrestes. Mas, parecem ferramentas inadequadas e inúteis.

Então, desvanecem as falsas virtudes, tão indispensáveis na sociedade urbana,e emergem os defeitos, as mazelas, os desvios. As buscas são redirecionadas, para as confissões, para a mutualidade. Qual o preço de tamanho desprendimento? A sobrevivência, e talvez, um recomeço.

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