Xacriabá

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Esse romance foi escrito logo em seguida da permanência de JH Henriques na reserva indígena Xacriabá, no Norte do Estado de Minas Gerais, bem próximo à divisa com a Bahia.

Quando se deslocou para essa longa permanência na reserva Xacriabá, JH Henriques buscava material genético para a formatação de sua tese de doutorado pela Universidade de São Paulo. Havia já concluído o mestrado e visava a progressão na carreira acadêmica.

Quando percebeu, porém, como revelou o próprio romancista, estava diante de um mundo que merecia um tratado de literatura. Aqui falou mais o escritor do que o doutor em Medicina Interna que trabalhava com genética molecular.

A formação em genética teve uma influência enorme na obra de Henriques. Esse fato modificou a escrita do poeta e do romancista. Fez da sua obra um estipêndio de pureza e condensação. Aliou a estrutura da sua obra inteira ao manancial dos elos que não podem respondidos sem que alguma coisa a mais seja mencionada entre Deus e as interrogações.

Xacriabá é um livro denso, amargo, tirado das intransigências a que são submetidos os povos durante o chamado progresso da civilização. A contaminação dos índios por essa progressão de vida.

Trecho do prefácio feito pelo próprio autor.

O norte do estado de Minas Gerais tem lá as suas grandes reverências. As suas surpresas. Suas glórias muito estagnadas num antigo mundo, viril e a um só tempo raro. Seu cabedal inaferrável de uma solidão gigantesca, suspensa entre o humano e o abandono de uma casca grossa de pau.

Muitas luas passam por lá todas as semanas que cabem nos dias. De Pirapora acima, até o Jequitaí, tem hora que o mundo sofre de uma dobra muito desarticulada. A vida começa a ser debulhada. E todo espaço soverte em dobra própria, a distância perde demais a parte objetiva que se dobra em lentes.

Há uma virgindez de trópico, crescente, nas coisas todas. Depois de Montes Claros, já a continuidade dos desenhos supre-se, qual uma caldeira grande. Entende-se o nome do lugar tão logo se começa a descer a serra. O nome permitido com a graça do entendimento do lugar.

A perenidade, doravante, ajunta um vermelhão de terra. Aparece nos barrancos das estradas o algodão-de-seda e ele não desaparece mais até que se atinjam as margens do rio Coxá, já nos limites com a Bahia.

De Lontra para mais acima, umas flores amarelas de pau baixo, dão de merecer um tingido puxado para o amarelo mais intenso que há, um amarelão, que se houvesse o aluvião de um teor a mais, quase que seria alaranjado.

Pau retorcido, com raiz superficial e que morre já morto, apenas é retirado dali e transposto para outra terra. Principalmente em lugar onde sobeja a água ele se afoga.

Depois, tudo se congrega num só bloco, as margens dos rios compõem-se de muita fartura – qual no rio Pandeiros e no pequenino Japoré. Quando se demanda passos adiante, a fartura raleia, fica o pequizeiro retorcido e a busca dos Gerais dando uma raridade de cabelos ao lugar. Aos lugares. Água rara.

Pouca para muita sede. Uma areia de mares antigos, decapitados, rima a superfície da terra. O branco acinzentado dela, fino, calcinado de tempos requeimados. O umbuzeiro aparece nas beiras dos casebres somente quando Montes Claros anuncia sua chegada.

Fica uma patente de registro nestes horizontes com árvores secas neles. O umbuzeiro é uma geografia desatada. Uma pobreza alegre – porquanto nortista de Minas, quase mineira, mais baiana do que propriamente assim outra coisa – toma conta das caras.

Em beira de casa de seus paus-a-pique costuma crescer o beijo empoeirada e a maria-sem-vergonha. Meninos vendem maritacas afilhotadas em beira de estrada e as mães vendem gamelas feitas de madeira ruim, mormente da paineira, embora jurem que é pau d’arco que faz a vasilha.

Leveza muita há no pau da paineira. Uma garrafa de mel com cisco e moscas mortas. Com dois meses de uso a gamela se parte em duas, sem jeito de conserto. O almofariz de madeira clara, quiçá também de paineira feito.

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