Webdocumentários e Narrativas em Paralaxe
Por Lilian Cristina Monteiro FrançaSobre o livro
A produção de sentindo integra o rol das mais complexas atividades a que nos debruçamos e imbrica-se de modo inequívoco ao espectro cultural. Tal problemática nos acompanha ao longo da história e intensifica-se a cada paradigma tecnológico.
Quando pensamos em webdocumentários (ou webdocs), o universo da produção de sentido envolve alguns conceitos típicos das escritas digitais que merecem ser repensados, a exemplo de interatividade, linearidade, multilinearidade e o próprio conceito de narrativa.
O foco desta pesquisa, portanto, irá concentrar-se nas possibilidades de construções narrativas hipertextuais, entre elas a narrativa em paralaxe, como estruturadoras da linguagem dos webdocs, provocando uma gama mais ampla de leituras possíveis.
As mudanças de base tecnológica, evidentemente, implicaram em desdobramentos no campo dos códigos e das linguagens, uma vez que novos suportes passariam a permitir composições diferentes, seja a estrutura hipertextual, a edição digital, a interatividade.
Em tal contexto, o cinema experimentou inúmeras transformações, inclusive no que tange à produção e estruturação de documentários e, mais recentemente, de webdocumentários ou webdocs, como costumam ser chamados.
Por meio de sua interface gráfica, a web abriu espaço para dar ao documentário um novo status, desta feita, mediado pelas tecnologias digitais, e, no dizer de Manuela Penafria (2013, p.
150): “[…] o certo é que as tecnologias são um elemento fundamental para se afirmarem, renovarem e concretizarem diversas estéticas e diferentes modos de representação”.
Com base no exposto, a presente investigação pretende debruçar-se sobre a produção de webdocumentários com vistas a examinar os modos pelos quais operam as narrativas, mais especificamente, as narrativas em paralaxe, bem como a sua integração aos processos de interatividade gerados em tais produções, considerando o contexto de desenvolvimento de redes sociotécnicas.
No escopo desta pesquisa a questão do ponto de vista será fundamentada na noção de paralaxe, como a formula Slavoj Žižek (2008).
O webdocumentário, portador intrínseco de não-linearidade ou, ao menos, de multilinearidade, seria um suporte capaz de privilegiar uma escrita/leitura que permitissem ao leitor conhecer a história de diferentes ângulos, no âmbito da produção de linguagens digitais.
O recorte compreende o período entre 2002 e 2020, incluindo todos os títulos recuperados através de” pesquisa no motor de buscas do Google, com a utilização dos operadores lógicos “webdocumentário”, “webdoc”, “webdocumentary”, “webdocumentaire”, “webdocumental” e “webdocumentário”; pesquisa de teses, dissertações, monografias e artigos científicos; pesquisas nos bancos de dados do IDFA, Docubase/ MIT DocuLab e festivais de webdocumentários.
Foram escolhidos, ainda, os idiomas: Português, Inglês, Espanhol, Italiano e Francês, para fins de composição da amostra.
O livro estrutura-se em três capítulos: “O webdocumentário: Cinema e novas lógicas de produção cultural”, que discute o ambiente que possibilitou o surgimento dos webdocs; “Duas décadas de webdocs – cartografias possíveis”, analisa os dados coletados na amostra e identifica as principais características do gênero na primeira (2002-2011) e segunda (2012-2020) décadas do gênero e,, “O webdoc e as narrativas em paralaxe”, que pretende conceituar narrativa em paralaxe e apresentar uma primeira tipologia.
Além desta introdução e de algumas considerações finais, procurou-se apresentar uma lista de webdocumentários que poderá subsidiar novas pesquisas.
O intuito, portanto, é o de contribuir, em alguma medida, para os estudos acerca das novas linguagens audiovisuais e seus desdobramentos, tanto para o campo da realização quanto para a perspectiva crítico/educativa que a produção de conteúdo digital deve/precisa, sempre, considerar.
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