Sombras de Concreto: Livro I

Por JORGE PORTUGAL

Sobre o livro

Prefácio A cidade parecia respirar devagar naquela noite. Do alto do Minhocão, as luzes de São Paulo piscavam como estrelas cansadas, refletidas no asfalto molhado. O vento trazia cheiro de chuva antiga e gasolina, misturado ao eco distante de alguém tocando violão em algum lugar invisível.

Diogo caminhava sem destino, mãos nos bolsos, fones de ouvido abafando o mundo. Um baixo melancólico algo entre Joy Division e The Sisters of Mercy pulsava no ritmo dos seus passos.

Ele gostava da sensação de ser só mais um vulto entre prédios gigantes, como se a cidade fosse grande o suficiente para esconder tudo o que doía. Lá embaixo, carros riscavam a madrugada. Acima, o céu era apenas um cinza sem estrelas. Ele parou quando percebeu que não estava sozinho.

Rafaela surgiu perto do parapeito, encostada como se sempre tivesse estado ali. Casaco escuro, cabelos dançando no vento, olhar que parecia atravessar o concreto. Não havia pressa nela só presença. Engraçado… disse, sem olhar diretamente para ele.

Sempre encontro as pessoas mais perdidas nos lugares mais altos. Diogo tirou um dos fones. E você? Tá perdida também? Ela pensou por um instante. Acho que não. Eu só gosto de observar quando a cidade baixa a guarda. Um ônibus passou abaixo deles, espalhando reflexos amarelos pelo viaduto.

Por um segundo, o rosto dela brilhou e desapareceu de novo nas sombras. Silêncio. Longe dali, um carro tocava algo que lembrava Raul Seixas, voz rouca atravessando a madrugada como um conselho antigo. Diogo sentiu um arrepio estranho, como se aquela noite tivesse sido escrita antes de acontecer.

Você acredita que São Paulo muda as pessoas? — Rafaela perguntou. Ele hesitou. Acho que ela revela quem a gente tenta esconder. Ela sorriu de lado. Um sorriso pequeno, mas perigoso. O vento ficou mais forte. Um papel de flyer voou pelo chão, parando perto dos pés deles.

Um show underground na Augusta. Nomes de bandas góticas impressos em tinta vermelha. Rafaela pegou o papel. Eu vou disse. Você deveria ir também. Eu nem sei seu nome. Ela finalmente olhou direto para ele. Olhos escuros, intensos, como se carregassem histórias que não cabiam ali. Rafaela.

Ele assentiu. Diogo. O som distante de sirenes atravessou a cidade. Um grupo de skatistas passou ao fundo, riscando o concreto, neon refletindo nas rodas. Por um instante, tudo pareceu rápido demais como uma cena de filme que muda antes de você entender. Rafaela começou a andar.

Vem disse, sem olhar para trás. A noite ainda tá começando. Diogo ficou parado por meio segundo. Pensou em voltar para casa, desligar o mundo, continuar invisível. Mas alguma coisa naquela voz… naquele jeito de caminhar como se já soubesse o final da história… fez ele seguir.

Eles desceram juntos em direção ao centro, onde as ruas nunca dormiam e as luzes escondiam segredos antigos. Ao longe, a silhueta do Edifício Copan surgia como um gigante curvado observando tudo. E, pela primeira vez em muito tempo, Diogo sentiu que não estava apenas passando pela cidade.

A cidade estava começando a olhar de volta.

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