Relatos após o apagão: Histórias de colapso e sobrevivência
Por Lía SoutoEm Relatos após o apagão , descubra, com uma narrativa ágil e viciante, uma coleção intensa de histórias de ficção científica apocalíptica e de sobrevivência após o colapso tecnológico. Cada conto mergulha você em mundos devastados, com sociedades em ruínas, vilarejos abandonados e pessoas obrigadas a lutar para sobreviver sem tecnologia. As portas não se abriram Julián, preso Quando tudo apagou, eu estava contando as rachaduras da parede. Era a minha maneira de não pensar. Uma rotina absurda que me protegia do barulho dos outros, do cheiro de suor, da violência em cada canto. No começo, achei que fosse só mais uma queda de energia. Acontecia com frequência. A luz piscava, sumia, voltava. Mas dessa vez não voltou. Nem um lampejo. A cela ficou em penumbra. O zumbido elétrico da lâmpada fluorescente morreu e foi substituído por um silêncio estranho, como se o ar tivesse parado. E então começaram os gritos. As portas não se abriram. Esse foi o primeiro detalhe que todos percebemos. As celas permaneceram trancadas. Alguns batiam nas grades, acreditando que a qualquer momento o sistema se reiniciaria e tudo voltaria ao normal. Mas não. A escuridão ficou. O corredor se encheu de vozes. Alguns rezavam. Outros xingavam. Alguém começou a rir, uma risada que subia como um grito animal. O medo tem esse efeito: uns choram, outros riem como loucos. Os guardas demoraram a reagir. Ouvimos seus passos correndo pelos corredores de cima, chaves arrastando, ordens que ninguém obedecia. Havia caos também fora das celas. Eu soube porque reconheci um som: um baque seco, carne contra metal, e um gemido de dor. Eu não me mexi. Fiquei sentado no meu catre, com as costas contra a parede. Sempre fiz isso. Observar. Esperar. Os homens que perdem a calma são os primeiros a morrer na prisão. A noite chegou rápido. Embora fossem apenas cinco da tarde, lá dentro virou noite cerrada. Sem geradores, sem luzes de emergência, sem nada. Só escuridão. Escuridão e medo. Alguém começou a gritar que o mundo tinha acabado. Outro dizia que era o início de uma fuga em massa, que os guardas tinham fugido e nos deixado para morrer. E mais alguém, lá do fundo, jurava que as fechaduras eletrônicas podiam falhar e se abrir sozinhas a qualquer momento. Esse boato foi como gasolina. As pancadas contra as grades se multiplicaram. O chão tremia com o estrondo de dezenas de presos chutando e empurrando ao mesmo tempo. Eu também me aproximei da porta, só para conferir. Empurrei com o ombro. Nada. A fechadura estava firme. Nem um milímetro. Foi então que ouvimos o primeiro tiro. E o segundo. Os guardas tinham perdido o controle em algum setor. Os gritos se misturaram com ordens, com choros, com um silêncio repentino que gelava o sangue. O silêncio que fica quando alguém cai morto. Passou uma hora. Duas. Perdi a conta. Na escuridão absoluta, o tempo não existe. Os que estavam mais apavorados começaram a bater na porta pedindo água. Ninguém respondia. Os guardas já não estavam mais lá. Isso todos sabíamos. E de repente, na cela ao lado, alguém começou a falar. Baixo, quase um sussurro, mas todos ouvimos.
Características do eBook
- Autor(a): Lía Souto
- Categoria: Fantasia, Horror e Ficção Científica
Amostra Grátis do Livro
Faça a leitura online do livro Relatos após o apagão: Histórias de colapso e sobrevivência, escrito por Lía Souto. Esse é um trecho gratuito disponibilizado pela Amazon, e não infringe os direitos do autor nem da editora.



