Relatos após o Apagão Vol. 2: Histórias de Caos e Esperança

Por Lía Souto

Sobre o livro

Em Relatos após o apagão, descubra, através de uma narrativa ágil e viciante, uma coleção intensa de histórias de ficção científica apocalíptica e sobrevivência após o colapso tecnológico. Cada conto mergulha você em mundos devastados, com sociedades desmoronadas, cidades abandonadas e pessoas obrigadas a lutar para sobreviver sem tecnologia.

Rua sem lei Dia 97 após o apagão Raúl, mecânico antes do colapso

A primeira vez que vi um cadáver no meio da rua, não senti nada. Nem nojo. Nem medo. Apenas… aceitação.

Era uma mulher. O rosto coberto por um saco, as mãos amarradas. Ninguém se atrevia a se aproximar. Ninguém removia o corpo.

Deixamos ela ali.

A cidade cheirava a lixo, suor e medo. Ratos se moviam à luz do dia. Os supermercados já não existiam: apenas ruínas, prateleiras vazias e portas arrancadas.

E então eles chegaram.

Chamam-nos de Bando da Ponte.

Ninguém sabe quantos são. Ninguém conhece seus nomes.

Só se sabe que governam a cidade desde que a luz se apagou.

Se quiser atravessar a ponte, paga. Se quiser água do rio, paga. Se quiser viver, paga. E se não puder pagar…

Bem, termina como a mulher com o saco no rosto.

Tentei me manter invisível. Não tenho família, não tenho nada que me faça notar. Só restava eu, minha oficina vazia e algumas latas escondidas sob o chão.

Mas a invisibilidade é um luxo que acaba rápido.

Me encontraram numa noite. Três deles. Entraram na oficina como cães farejando carne.

—Esconderijo bonito —disse o mais alto, chutando as latas com a bota—. Agora é nosso.

Quis protestar. Não fiz. Apenas assenti.

—E você? —perguntou outro, com um sorriso torto—. O que faz para merecer o ar que respira?

Não soube o que responder.

Me bateram. Não para me matar. Apenas para deixar claro que nada mais era meu. Nem comida. Nem ar.

No dia seguinte, acordei com a boca cheia de sangue seco.

E uma ideia.

Eu podia continuar invisível. Ou podia me tornar um deles.

A escolha não foi difícil.

O primeiro trabalho foi simples.

Me deram uma faca enferrujada e me levaram à rua do mercado. Lá estava um homem, ajoelhado, tremendo. Um ladrão, disseram.

—Faça.

Senti minhas pernas travarem. O cara me olhava, com os olhos arregalados.

—Por favor —sussurrou—.

Eu também quis dizer algo. Uma desculpa. Um “não posso”.

Mas não saiu.

Então fiz.

A faca entrou mais fácil do que eu imaginava. O sangue, morno, encharcou minha mão.

Eles aplaudiram. E eu soube que não havia mais volta.

As semanas seguintes foram um nevoeiro de gritos, golpes e fogo. Queimávamos casas. Saqueávamos quem parecia fraco. E matávamos. Matávamos muito.

Mas o pior não era fazer. O pior era perceber que estava começando a gostar.

A sensação de poder. O controle. Depois de tanto medo, de tanto me esconder, finalmente era eu quem decidia quem respirava e quem não respirava.

Fui promovido rapidamente. O mecânico magro já não existia. Agora eu era Raúl “o Surdo”, porque não ouvia súplicas.

Até que um dia eu a vi…

Baixe esta página em PDF para ler quando quiser, mesmo offline.

📄 Salvar PDF

Avaliações dos leitores

Descubra as opiniões de outros leitores, explore avaliações detalhadas e veja se este livro realmente vale a pena para você, com base em experiências reais de quem já leu e compartilhou sua visão sobre a obra.

⭐ Reviews dos leitores