Porta Retratos para Carlos Zéfiro

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Carlos Zéfiro foi um nome condecorado na década de sessenta/setenta, em todas as alcovas e garçonnières brasileiras. Era um tempo mais pacato em relação aos atributos da liberação feminina e no sentido sexual, havia muita coisa que estava proibida aos olhos e aos desejos de um público nada seleto.

Isso quer dizer que a debandada era geral.

Quando se diz tempo mais pacato, a corrigir uma frase anterior, não era mais calmo o eclodir de todos os desejos, porque isso, a falar o certo, era coisa que já vinha crescendo com a criatura e uma certa promiscuidade e mistura de pessoas ajudava a concretizar algum elemento desse sentimento com mais praticidade.

Era assim que se agia, era assim que funcionava. Então, Carlos Zéfiro teve uma importância de cartunista erótico muito grande no seio dessa sociedade que caminhava a passos largos para maior debandada ainda.

Por força do hábito e buscando mais um dado de biografia do que mesmo forcejando uma análise completa de uma obra como esta, indaguei ao poeta como foi que ele tomou conhecimento desses livrinhos de Carlos Zéfiro, os famosos livrinhos de sacanagem daqueles dias.

Henriques me disse coisas muito pitorescas. Contou que um dos colegas de república, quando ele contava quatorze anos de idade, mostrou a ele a tal indecência. Ele ficou bastante impressionado com a dimensão doméstica daquilo.

Chegou a pensar, mas uma história dessas é o cotidiano de um mundo como esse, o de Minas Gerais. Porém, isso devia mesmo ser estendido ao Brasil inteiro. Carlos Zéfiro, o desenhista e dono dos textos, devia mesmo ser um daqueles formadores de opinião dentro de uma classe desfavorecida.

Então, Humberto Henriques acrescenta que havia uma constate curiosidade com relação a isso entre todos que faziam aquele grupo de garotos da mesma idade e até em uns mais galudos que moravam na mesma república.

Foi aí que ele ficou sabendo que esse material proibido – caso de polícia, acaso alguém tomasse conhecimento do consumo desse material sujo – podia ser adquirido numa alfaiataria e lavanderia que existia na Rua Vigário Silva, em frente à Loja do Moisés Alfaiate e da Academia de Judô do Gaona.

Caminhando um pouco mais, na esquina com a Segismundo Mendes havia o Foto Prieto, de propriedade de José e Ricardo Prieto, ambos de uma grande, doce e saudosa memória. Ali funcionava a venda de uns almanaques suecos, muito cobiçados naquele tempo.

Ao contrário dos livros de Zéfiro, esses almanaques eram feitos com fotografias em bom papel. Coisa proibida. Aquilo sim, era crime hediondo. Então, saber deles já era criminoso.

Então, para se entender e ver o conteúdo de um desses almanaques suíços em tamanho reduzido, era preciso entrar na alfaiataria e perguntar ao alfaiate se ali tinha. Não era preciso perguntar o que. Somente dizer que havia interesse em ver.

Henriques e um colega de aula, depois de sair do Colégio Marista, cinco horas a tarde, resolveu não ir ao futebol e era preciso passar lá. E passou. Falou cm o alfaiate.

O homem ajeitou os óculos na bicanca e foi lá dentro, atrás de umas cortinas, foi com calma grande e trouxe o livrinho colorido, umas dez páginas. E voltou a passar a ferro uma camisa que estivera a compor. Um outro também trabalhava diante dele. Eram dois os alfaiates.

Ora, o homem sabia que dois garotos sem eira e nem beira não iam comprar aquilo. Porém, Henriques teve verve e perguntou. Quanto custa isso? O homem respondeu na bucha. Trinta! Trinta mangos!

Era um dinheirão. Dava para comprar uns quarenta gibis do Tarzan dos Macacos. Então, eles agradeceram e se foram dali. Devolveram o livreco e o homem foi escondê-lo atrás das cortinas.

Assim, Carlos Zéfiro ficou muito mais imponente porque as fotografias da revista suíça eram feias, borradas e cheias de mulheres magras e com jeito de enfermas. Carlos Zéfiro não. Esse sabia descrever uma moxinifada com a batuta dos sistemas patriarcais daqueles dias.

Um livro de poemas espesso. Tanto no sentido da qualidade quando no sentido da su

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