O Primeiro de Maio

Por Sebastião de Magalhães Lima

Sobre o livro

SOLEMNIA VERBA… Recordo-me perfeitamente. Era uma manhã de agosto. Na vespera, Cipriani havia me dito: «amanhã, ás 11 horas, na gare de S. Lazare!» Fomos ambos pontuaes. Tomámos os nossos bilhetes, e seguimos no trem de Asnières.

Era ali, na rua de Colombes, que vivia, ou que agonisava, para melhor dizer, Benoit Malon. Subimos a longa escadaria que conduzia a um terceiro andar. O mestre dormia tranquillamente.

Mas, presentindo-nos, afastou docemente o lenço branco que lhe encobria o rosto, e estendeu-nos a mão com carinho e alvoroço, abraçando-nos e beijando-nos, ao mesmo tempo.

A sua physionomia, abatida e amarellecida pelo uso da morphina, tinha o aspecto doentio, morbido,{8} de quem, havia muito, não dormira ou se achara dominado por terriveis convulsões. O quarto era pequeno, illuminado por uma janella que deitava para a rua.

Sobre o leito em desalinho, alguns jornaes, dobrados uns, abertos outros—Le Rappel, La Petite Republique Française, La Justice… A atmosphera estava impregnada d’aquelle cheiro caracteristico das longas enfermidades dolorosas.

A um lado do leito uma mesa, completamente coalhada de garrafas e frascos, uma pequena pharmacia, para assim o dizer; e a outro lado a figura luminosa, transparente e doce de Mademoiselle Estelle Husson, a enfermeira querida e dedicada, que teve a rara coragem e a excepcional perseverança de atravessar os seis longos mezes da doença, passando as noites em vigilia, ao lado do enfermo, sem se deitar…

—É uma heroina!—disse-me Amilcare Cipriani

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