O Espinho do Mandacaru

Por Viviane Nery

Sobre o livro

No sertão dos anos 30 aos 80, o coronelismo ainda se faz presente em uma pequena cidade do interior. Quatro mulheres nos contam as suas histórias de lutas, lutos, dores, abusos e glórias, no coração do Brasil profundo. As suas narrativas espinhosas, entrelaçam-se a muitas outras neste romance de estreia de Viviane Nery.

Ana Luz é uma profissional do sexo com um passado marcado pelo assassinato do pai e suicídio da mãe. Fugindo de uma série de abusos sofridos, ainda na adolescência ela parte em busca de um futuro melhor, escondida em um pau de arara.

Clara sente que Pedro é o homem de sua vida, logo de conhecê-lo. Embriagada pela paixão juvenil, abandona o severo lar com os pais. A jovem não imagina todas as desgraças que se abaterão sobre si e a família constituída da fuga para viver o avassalador amor de juventude.

Aurélia é criada dentro de uma rígida dinâmica patriarcal, para ser a esposa, filha e mãe perfeitas. Após casar-se por conveniência com Fabrício, o qual herda o legado paterno de brutalidade, além da pungente promiscuidade, Aurélia tece um plano complexo e minucioso, como as tramas do seu bordado, para conseguir a sua libertação e vingança contra o violento marido.

Rosário é uma velha parteira e curandeira local, a viver entre temporalidades e os seus muitos véus. Devido aos seus dons, ela acessa os visíveis e invisíveis, o ontem e o amanhã, a partir do hoje. Por meio de suas rezas, benzeduras e saberes fitoterápicos, ela possui o conhecimento capaz de curar, mas também o que conduz à morte. Do qual lançará mão, dependerá do que lhe conta o vento ancestral.

“O Espinho do Mandacaru, da autora Viviane Nery, bebe de uma tradição que há muito tem se tentado apagar e invisibilizar no Brasil, em especial, na literatura brasileira estudada, discutida e produzida, seja nos espaços acadêmicos, literários e/ou culturais, historicamente.

A tradição que concebe escritura pela perspectiva sacro-ancestral e parte das experiências vivenciadas e acessadas via comunidade de partilha e afeto, para produzir literatura, de raízes negras e/ou indígenas de forte denúncia, e reivindicação por espaços de fala e escuta, nascida do amor pela sabedoria, ou dos princípios filosóficos e epistemológicos, tido como outros, passados de geração a geração.

Obras-primas da literatura tecidas por mãos femininas, tais autorias pertencem a escritoras como Maria Firmina dos Reis, Ruth Guimarães, Carolina Maria de Jesus, Conceição Evaristo, Graça Graúna, Márcia Kambeba, Márcia Mura, para elencar algumas escritoras de uma vasta produção que tem ascendido nas últimas décadas.

A quem importa a nossa escrita feminina negra e/ou indígena, tida como regionalista?

Viviane Nery escancara em uma obra autoral e de caráter memorial, a apontar que a vida da mulher do campo, da ribeirinha, da sertaneja, da curandeira, encontra-se atravessada por marcadores relacionados com raça, gênero e classe e transpassada por violências múltiplas, de várias escalas e graus, que os poderes patriarcais perpetram e mantêm.

A narrativa de Viviane Nery é irmanada com a de outras mais velhas, pagando tributo a quem veio antes, as mulheres de sua família, mestras da literatura oral: mães, filhas, irmãs, tias e avós, como muitas das nossas mais velhas.

Ela diz-nos, com essa obra, que o seu tempo é o agora, e a sua produção segue na perspectiva de um futuro que reverencia a memória”

— Juciane Reis, Ti Ìyemojá, educadora, doutoranda em literatura e cultura, e escritora, finalista do Prêmio Kindle 2021.

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