Éramos livres…: Antologia de contos da pandemia

Por Fabiano Jucá

Sobre o livro

2020 é e será sempre sinônimo de coronavírus, de covid-19, de pandemia. Era inimaginável à maioria de nós a possibilidade de viver uma espécie de distopia que parece não ter mais fim. Com a desvantagem óbvia de que essa distopia é bem concreta.

Fala-se muito no “novo normal”, e não sabemos muito bem quais serão as implicações disso. Tudo irá mudar, dizem por aí. Tudo o quê? É difícil fazer qualquer exercício de futurologia, mais fácil é apontar cenários possíveis.

Difícil também é vivenciar algo desse tipo em uma sociedade onde o próprio poder público, muitas vezes, tem atitude negacionista, justamente num momento em que precisamos desesperadamente da ciência para salvar vidas.

Como chegamos a esse ponto é um mistério, mas o objetivo desta antologia não é prever cenários nem analisar conjunturas. Aqui, o objetivo é colocar a arte a serviço da sanidade mental. Falar sobre o que nos assusta nos ajuda a lidar melhor com a situação.

E foi pensando nisso que a ideia do concurso — que deu origem à antologia — surgiu. Escrevi um pequeno e apocalíptico texto sobre a pandemia para publicar em minhas redes sociais, e percebi que seria uma boa válvula de escape: incentivar as pessoas a se abrirem, jogarem suas angústias no “papel”.

De fato, recebemos contos os mais diversos. Tem distopia, tem terror, tem crônicas do cotidiano, tem até mesmo comédia (com tons críticos criativamente espalhados). São diversas formas de se comunicar com o momento que vivemos, de entender seu papel enquanto cidadão, de extravasar suas ideias, de liberar suas tensões, libertar os seus medos.

Não houve uma taxa de inscrição, mas abrimos a possibilidade de doação de qualquer quantia para hospitais de referência em covid-19. Tal doação não foi obrigatória, para tentar manter o aspecto democrático do concurso, afinal, nem todos têm recursos. Mas tivemos algumas doações, e toda a venda de e-books será — integralmente — direcionada ao Hospital São Vicente de Paulo, de Guarapuava (PR), durante um ano, a partir da data de publicação.

Éramos livres e não sabíamos. Agora temos uma liberdade vigiada, relativa. Bem sabemos que nem todos respeitam as regras do bom senso, que ser privado da liberdade plena é muito chato, desagradável. Mas é um trabalho coletivo.

A falta de senso coletivo ajuda, e muito, a explicar a situação gravíssima que o Brasil vive, numa onda de negacionismo que não combina com o terceiro milênio e não faz sentido dentro do tão propaladamente tecnológico século 21, embora infelizmente seja explicável dentro de contextos psicológicos.

No clima de cada um por si, conclamamos a todos o “pensar no próximo”, o “querer bem ao próximo”, o “agir por todos”. Toda ação deve ser pensada no sentido de proteger-se e aos demais. Não me parece algo que devesse ocorrer somente durante uma pandemia, no fim das contas.

Que a próxima antologia seja uma linda homenagem ao fim da epidemia!

Lista de contos:

Jonatas Bahia – O direito de ter a última conversa

Lígia Dantas – Uma paquera para Liz na quarentena

Eduardo Reghim – Dias sombrios

Fabiano Jucá – Invasão

Pedro Martins – Nos escombros da metrópole A

Luiz Guilherme Sebrenski – Diálogo com a solidão

Simone Mattos – Perdão pelas memórias felizes

Grasiela Lima – Mete a colher, se preciso, desce a pisa

M. M. F. Ikka – O Novo Mundo e o deus-menino

Klaus Pettinger – O Sumiço de Malcool Gell

Maria Eduarda Duarte – Os pingos que o céu chora

Emerson Almeida – Cidade de lápides

Patrícia Loureiro – Um amor no tempo do isolamento social

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