Sobre o livro
Esse é um livro de fôlego. Espesso e altamente introspectivo. Juntamente com Wilhelm & Louis, talvez seja esse o livro mais denso de toda a estupenda obra de JH Henriques, o romancista mais produtivo que o Brasil já conheceu.
Toda a desenvoltura do romance se baseia em critérios de uma existência absurda. Wilhelm & Louis utiliza na trama dois irmãos de natureza especial, sugestão que sejam ambos portadores da Síndrome de Down. Já A Viseira do Camaleão utiliza apenas uma personagem, porém, também de cunho especial.
Diante disso, muitas vezes o olho dos interlocutores adquire uma ambientação fenomenológica cheia de surpresas e plenas de possibilidades. Coisas absurdas, mas não impossíveis. Assim o romance vai avante e se mostra homogêneo.
Em seu livro Reflexões sobre o romance moderno, Anatol Rosenfeld traça algumas hipóteses que explicariam a torrente de transformações pelas quais passa o romance moderno. JH Henriques entra nesse rol de transformações, embora tenha que ser julgado de modo separado.
Esse autor é uma ilha no centro dessas turbulências todas. As varias causas que atingem os outros escritores também o atingem, não resta a menor dúvida, somente acontece aqui, entretanto, uma obstinação do estilo em se consagrar de maneira independente.
Essa produção gigantesca do romancista dança vários estilos de música. E isso nos parece ser um caso de excepcional regência dentro de toda a Literatura Universal.
A Viseira do Camaleão é livro de profunda revelação dos tormentos existenciais. Pode ser que jamais um livro tenha sido apresentado com tamanha introspecção nesse século dentro do panorama de toda a literatura brasileira. Esta revelação do absurdo, por si só, já gera contrassenso.
Absurdum, do latim, quer dizer contrassenso, oposição à razão.
Mais absurdo ainda dizer que aqui estamos a lidar com o contrassenso do contrassenso, o desfile de todas estas personagens com nomes emblemáticos, alguns retirados de um verbo auxiliado por um substantivo ou mesmo por um verbo ajudado por um adverbio ou locução adverbial.
Isso não faz do romance um mirabolante teatro de fantoches. Pelo contrário,
O teatro de fantoches em que se espelha essa criação advém exatamente da existência da forma como ela é.
Então, esse romance A Viseira do Camaleão administra apenas a gramática de forma inusitada; entretanto, faz o desfile das personagens dentro de um cortejo de fenômenos aparentemente absurdos, mas que tratam apenas a realidade da razão de uma maneira troncha. Contrasssensual.
É esse exatamente o estereótipo sobre o qual se está revelando mais um dos grandes romances de JH Henriques.
Albert Camus tornou ao absurdo ainda mais complexo com a criação do absurdismo. Isso é tratado no campo da filosofia. A citação mais frequente desses absurdistas fica por conta dos romances de Franz Kafka e Dostoievsky.
No caso desses romances criados por Henriques, percebe-se que a teoria do absurdo se revela de maneira continuada em suas personagens travestidas pela evolução dos mundos e pela transformação romanesca citada por Rosenfeld. A via transcorre dentro de plataformas aparentemente normais.
Quando se evolui dentro do entrecho, da história que se pretende contar, a algaravia se acentua e as coisas ditas sem razão se revelam. E se entrelaçam, acabando por confirmar e conformar todas as noções de que a existência em si, é um palco de absurdos.
Assim, Mário Estimo e Fábio Agonizo andam dentro dessa história e se põem por demais à vontade.
As excelências comportamentais da vida, as ilusões decretadas por coisa pequenas e por prazeres mundanos, os vícios que acabam em apócopes e que não podem se desgrudas das criaturas, tudo gira numa velocidade enorme – porém, com a virtual sensação de que tudo é lento e jamais vai mudar.
Diante desse leque de acontecimentos, ruge a leveza da criação literária apurada. JH Henriques é dito por algumas falanges escritor hermético. Isso não chega a ser uma verdade que necessite de investigação. Não é hermético.
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