Sobre o livro
O dia de hoje terminou trata do envelhecimento e da morte na pós-modernidade.
Em seus delírios, sonhos e memórias, a narrativa, na primeira pessoa, de uma senhora que parece sofrer de algum tipo de demência, denuncia abusos e maus tratos contra idosos e mulheres, numa sociedade toda construída contra eles.
Além disso, retrata um ambiente marcado por uma suposta ditadura que limita a liberdade das pessoas e interfere em seus destinos. Trata-se, pois, de uma metáfora sobre o declínio da Democracia em nosso tempo.
O romance traz, entre lembranças e esquecimentos, fantasias e desejos, a misteriosa relação que a narradora tem com Deus, até compreender – como aconteceu com o personagem bíblico Jó – que Deus pode nos revivificar desde as nossas cinzas.
A protagonista interpreta o mundo (simbolicamente nomeado de Pedra Miúda) como um lugar de opressão. Para ela, todas as alegrias humanas são tristes e a única alegria que ela consegue acessar – mesmo sentindo o terrível peso do cotidiano – está na união mística com Deus.
Tenta superar a dor de existir numa relação transcendente.
A narradora, sem grandes estudos, numa postura autodidata, primeiro aprendendo com as histórias contadas pelos pais e, depois, por leituras e escritos seus, apreende empiricamente todo o caos em que o mundo foi mergulhado nos séculos XX e XXI, nos quais as democracias estão – como ela mesma – envelhecendo e morrendo.
Sua história pessoal é atravessada pelo drama social que a atinge, como numa tragédia grega, trabalhando muito mais do que oito horas por dia para sustentar os filhos, sem marido.
Ao contar sua história, por ordem de um confessor, percebe possuir e estar subjugada à cultura do descarte, que gera alienação.
Assim, presa a uma cultura que finge convidar e propor, mas, na verdade, impõe ao homem contemporâneo, desde a infância, a reconhecer como únicas saídas o individualismo, o relativismo, o pragmatismo e o consumismo, resta-lhe escrever e rezar.
O dia de hoje terminou é, assim, a denúncia e o retrato de um sistema que não dá certo, que tortura mulheres e idosos, que não respeita a vida em nenhuma de suas instâncias, especialmente a dos mais indefesos e indigentes.
Com formação em Filosofia, Teologia e Psicanálise, os livros de Paulo Emanuel Machado são romances de ideias.
Neles, o autor descortina a mística católica integrada a enredos de denúncia social e profunda análise psíquica de seus personagens, especialmente dos narradores, aos quais sempre coloca na primeira pessoa para assegurar a identificação primária do leitor.
Em O dia de hoje terminou, o autor não nomeia a narradora para que se perceba que a mulher machucada que nos convida a acompanhá-la em suas ruminações é, talvez, cada mulher que conhecemos. Ou, quem sabe, o feminino que, em nós, é calado por uma sociedade machista e violenta.
Ou ainda a frágil Democracia que tentamos salvar. O romance nos convida a fazer um profundo exame de consciência. Sendo religioso, é também um livro profundamente preocupado em articular fé e vida, fé e razão, fé e política. Paulo Emanuel Machado nasceu e vive em Salvador/BA.
Com formação em Filosofia, Teologia e Psicanálise, atua como psicanalista e professor. Dedica-se à literatura desde jovem.
Participou durante cinco anos do Núcleo de Formação Permanente de Psicanálise de Crianças e Adolescentes do Círculo Psicanalítico da Bahia e é membro da Academia de Letras do Brasil, seccional Bahia.
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