Sobre o livro
Se a sua história vira manchete, quem segura o microfone? Kiara Lee aprendeu cedo uma coisa que ninguém ensina na escola — nem na USP: não existe “boa noite” quando a memória não dorme.
Aos quatro anos, em Manhattan Beach, Califórnia, um helicóptero girou como tampinha de refrigerante no asfalto quente e o mundo perdeu o eixo. Cheiro de protetor solar, sal no ar, mar brilhando — até que não. Desde então, a vida dela ficou em modo alerta.
O trauma virou relógio: o corpo até apaga; a cabeça, nunca.
Por isso, quando, anos depois, alguém tenta empurrar a história dela para um “boa noite, sem a sua banda de rock” — e isso é um afeto triste que testa a sua autoria — Kiara Lee não compra o conto, ela escolhe ser autora da própria vida, de música e sorrisos. É autora também do que ela lê.
E escrever, é respirar. Para ela, aquilo não era “boa noite”. Era só a confirmação de uma verdade antiga: sempre foi bom dia. Bom dia no susto. Bom dia em alerta. Bom dia na sobrevivência. Bom dia dentro da Utopia Brasileira. O show de abertura da banda estoura e vira vídeo de todo mundo.
Dois milhões de likes. Parece aplauso, mas é holofote: ilumina e queima. E, quando a realidade tenta empurrá-la para o silêncio — ou para a versão que alguém quer contar — Kiara faz o que aprendeu desde Manhattan Beach: sai de cena antes que escrevam por ela.
Ela volta para Porto Alegre e pede uma hora de conversa com o avô, Zeca Garibaldi — o homem que coleciona silêncios como quem coleciona taças. Só que o avô está numa fase pouco glamourosa para um colecionador de segredos: tornozeleira eletrônica.
E tornozeleira é isso: até o poder, quando dá errado, vira acessório. Zeca não quer a neta farejando demais. E Kiara fareja tudo. Então ele oferece um acordo com cara de presente: um “intercâmbio diferente”. Um ano fora. Treze países. O Brasil contado como país, porque até no escape tem auditoria.
Kiara já cumpriu os créditos do curso. Falta o TCC — “A linguagem da publicidade e propaganda no metaverso das bibliotecas brasileiras” — e falta, principalmente, não ser engolida por versões.
Antes do embarque, Vó Rita coloca nos braços dela o presente mais improvável e, sinceramente, o mais perigoso: um Smart Teddy. Um ursinho inteligente que grava, arquiva, observa. Ele vigia — sim. Mas, conforme a viagem avança, o que parecia ferramenta vira abrigo: um arquivo com afeto.
Um companheiro que aprende que proteger também é dizer “não” à edição alheia. E Kiara vai: da Ásia às Américas, hostels por escolha (porque anonimato é luxo), aeroportos com cheiro de pressa, cidades que entram no corpo como refrão.
Em cada país, ela compõe e escreve o roteiro de um documentário sobre Lennon, o irmão desaparecido desde Manhattan Beach. Não é turismo. É investigação com batida. É o jeito dela procurar sem deixar de viver.
Para Kiara, a vida parece uma máquina antiga de pinball: luz piscando, sirene tocando, metal devolvendo impacto. A diferença é que, aqui, se a bolinha cair, não tem “colocar ficha de novo”. E ela sabe disso. No meio de tudo, a banda — que ficou parada por um ano — volta.
Do jeito que volta o que é verdadeiro: fazendo barulho. No fim, quando o mundo tenta oferecer um “rito social” de formatura, Kiara escolhe outro. Ela não vai ao baile. Ela escolhe o próprio mapa. E assina uma frase que não é slogan — é sentença: ninguém mais vai calar uma banda de garotas.
Se você gosta de histórias com palco, viagem, segredo, memória, coragem e um ursinho inteligente que sabe demais… cuidado: este livro não dá “boa noite”. Ele dá bom dia — e te acorda junto.
Romance YA de estreia de Ludmila Capuzzo, resultado de 22 anos de escrita e do olhar de uma pesquisadora em Comunicação. Uma história que une narrativa pop e consciência de linguagem — sem perder coração.
A Utopia Brasileira entende o tempo em que a gente vive: narrativa é poder — e a Kiara Lee só vira livre quando decide tomar o microfone de volta.
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