Sobre o livro
Trata-se duma cidade pechada ao mar, estranha, onde os cemitérios estão à beira da estrada. Manequins e estatuas são uma parte da sua vizinhança, outra são os corvos e as gaivotas. Uma figura passeia aterecida por uma cidade congelada em outubro que se nos confessa: “sinto-me soa no meio da gente”.
Cruz tem a capacidade de pintar com mestria esta figura e os seus pensamentos com o seu fino pincel de palavras exatas de precisão matemática. Retrata a sua tristeza profunda e aceda no lenço deste espaço urbano que nos resulta familiar, quiçá porque evoca as nossas ruas.
A soidade dessa mulher, vizinha ou amiga, vem provocada pela ausência dum ser amado. Se calhar o amante que encheu de cores os cálidos dias que passaram com a mesma velocidade com a que se vai a inocência da juventude. Sem o advertir, o tempo suma “dias, meses, anos” e um dia vemos já não somos moços e, assim, o peso de todo o tempo que fumos vivendo cai sobre os nossos ossos e nos esmaga sem misericórdia.
Cruz continua a sua obra. O retrato da mulher deixada de todos que vai aguarda “saboreando um gelado de vanilina” em pleno inverno. A contradição é contraste e Cruz imprime um chiaroscuro de metáforas com volume iluminadas lateralmente. Descreve uns traços onde os tropos são feitos passar por si próprios e as metáforas ficam penduradas das lembranças.
Neste outono pragado de neve que queima a pele como os beijos, a mulher “boureada / feble”, não dá digerido a melancolia que a embriaga, “pois os recordos /agocham-se fortemente na memória” e vai duma parte para a outra, percorrendo uma cidade cujas ruas são um calvário que se estende desde a porta da casa até o cais que guardam as gaivotas grises.
Esta mulher, retratada como um “corpo aberto”, transita “através da luz azul”, resiste os desejos da autodestruição. Não sabemos por quanto tempo, se calhar amanhã choraremos a sua perda, agora que parece abandonada pelo mundo todo. Ela, uma mulher sem nome, tenta deixar-nos noticia dessas “ausências abrem sucos na pele” sorte com uma caligrafia esvaída.
E mais nada. Que será dela? Nós não o sabemos. Se calhar, Cruz é depositária do testemunho íntegro dessa mulher e poda dizer-nos que agora já não lhe medram ferros no corpo, que já não tem frio. Se calhar não e só devamos lembrar que, por vezes, o recordo dos tempos felizes torna-se numa “xerocopia dum episodio em branco e negro”.
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