usufruto de ruínas

Por Whisner Fraga

Sobre o livro

Quando tudo termina, quando a coluna vertebral do mundo se arrebenta, quando se esburaca a tessitura do todo, das fendas e rasgos brotam dutos de ar: visões, planisférios, tempos outros, diversos do tempo-capital.

Por isso cada pensamento apreensivo a respeito do apocalipse – isto é uma obviedade – é sempre um pensamento esperançoso, com mais ou menos segredo. No “meio-dia consumado” o horror expulsará a podridão. O tempo do grande incêndio será, por isso, um tempo de reencontro com as aparições do ar livre.

Foi-se – se terá ido – o estertor, o estrebuchamento do tempo-dinheiro, o qual, como o famoso pré-cadáver de Poe, estava perpetuado em seu contínuo apodrecimento.

A cremação do mundo, segundo relata Whisner, em seu Weltende, para lembrarmos do expressionista Jacob van Hoddis, é a constatação de sua possível reoxigenação.

As libélulas carbonizadas, como aviões em miniatura, reconstelam-no, e nessa nova constelação pulverizam, sobre o céu negro, gotejos de tutanos de carvões e costelas quebradas. Numa palavra, temporalidades como a de ‘decomposição do aço” põem em cena maciços blocos de ar.

Como, em textos assim, os recursos são vastos, basta e impetuosa é a taxa de respirabilidade. Gabriel Morais Medeiros

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