Sobre o livro
DO AUTOR
Dou respeito às coisas desimportantes e aos seres desimportantes.
Prezo insetos mais que aviões.
Prezo a velocidade das tartarugas mais que a dos mísseis.
Tenho em mim esse atraso de nascença.
Eu fui aparelhado para gostar de passarinhos.
Tenho abundância de ser feliz por isso.
Meu quintal é maior do que o mundo.
Manoel de Barros
Esquecemos o amor, a amizade, os sentimentos, o trabalho bem feito.
O que se consome, o que se compra, são apenas sedativos morais, que tranquilizam seus escrúpulos éticos.
Zygmunt Bauman
O pensamento norteador da obra em epígrafe, que reúne poemas e ensaios sobre cidadania e alteridade, é dar ensejo a um debate necessário e urgentíssimo!
Como transformar a realidade nacional, permeada pela anomia institucional e anemia moral, em que viceja a prevalência das gratificações instantâneas, da sanha irrefreada pela ocupação de espaços de poder que consagram graves disfunções no tecido social e promovem a coisificação da vida, o desvalor da simplicidade e suas “coisas desimportantes”?
Como restituir a cidadania efetiva e prática salutar do exercício de alteridade à legião de desabrigados urbanos, matilha de lobisomens, predadores e presas de seus destinos, que perambulam em busca de liberdade e segurança afetivas, de um refúgio perfeito, porém, não lhes socorre melhor sorte do que um enclausuramento solitário, cujas grades são as ilusões
forjadas pelo imaginário das “comunidades de ocasião” de dependentes alcoólicos, químicos, tecnológicos e afetivos?
Como resgatar o pertencimento daqueles tantas vezes invisíveis ou invisibilizados pelos esbulhos psíquicos, sociais, morais, identitários, mercê do racismo, xenofobia, misoginia e da homofobia institucionalizados, da naturalização de desigualdades?
Em lirismo arrebatado por um misto de indignação e esperança, proponho diálogos sobre questões como o civismo, a sentimentalidade, a existência em uma perspectiva coletiva, o valor da conscientização, democracia, dignidade humana, politicidade.
Que as reflexões lançadas nesta compilação de poemas e ensaios possam dar um impulso na evolução do pensamento crítico de nossos cidadãos, evitando que incorram na intolerância e que se deixem persuadir pela retórica vazia das ideias preconcebidas, em benefício do entendimento e do respeito mútuo, imprescindíveis para a paz social. Boa leitura!
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