Sortilégios

Por Geraldo Paiva

Sobre o livro

A presente coletânea é composta por 42 textos, que mais se poderiam considerar narratemas ou prosemas do que poemas propriamente ditos.

Se textos há que enaltecem o que Nathalie Sarraute qualifica de “êxtase material” perante a realidade, e que o trabalho poético recupera através da memória, outros remetem para um mundo interior em que subtilmente se insere, através do humor e da ironia, a dimensão de um desassossego profundo, existencial, que transfigura a realidade no que ela tem de mais redutor na sua banalidade.

Mas as verdadeiras metamorfoses são sempre as do coração, as quais a sensibilidade entende melhor que a razão.

XXXVIII

Orfeu na paisagem

Considerar um lírio verde do campo ou um barco a vapor num Mississípi nunca visto, só do alto do promontório do seu verso perfeito.

Com a foice dos olhos, ceifava paisagens que conservava no cesto das sensações. Eram ossos de chuvas, catedrais de lágrimas, fotografias do silêncio. E o rosto de Eurídice a emoldurar as tardes de verão, o seu cansaço de folha furada e, num canto da memória, um passeio sob as tílias como um biombo entre os dois.

Arrancou o verso pela raiz, parou de o alimentar com eneassílabos de pombas, com ulmeiros em redondilha maior e pôs-se a olhar para a natureza sem a mediação de aparelhos fotográficos.

Agora era ele a ponte sobre o rio dos braços de Eurídice. Era ele o pôr-do-sol dos beijos nos seus lábios.

Não eram necessários nem versos nem rimas, nem o consentimento da gramática respeitosa que dá aulas no instituto das artes e das letras.

Bastava, sim, lançar uma bomba nos latifúndios da literatura.

E palavras com chuva e com silêncio dentro.

XXXIX

Ajuste de contas

Ele foi à luta: deixou lá três dentes. Ele fez-se à vida: deixou lá três filhos. Subiu para o ringue: deixou lá os punhos.

Então levantou-se.

E voltando à luta, partiu três focinhos. Fazendo-se à vida, liquidou três almas. Saltando pro ringue, deu cabo da saúde.

Então recuou. Deitou-se a dormir.

A luta abeirou-se: esmagou-lhe os braços. A vida chamou-o: torceu-lhe o pescoço. O ringue intimou-o: rachou-lhe a cabeça.

Então desistiu.

E voltando a luta, cuspiu-lhe o macaco. Reclamou-o a vida e limpou-lhe o sebo. Arrastou-o o ringue e adeus sossego.

Então investiu.

Atraiu-se a si mesmo para um canto e atacou sem dó. Linchou o miserável nele, o miserável despedaçou, afogando-o no próprio sangue.

Estava à espera de quê, o infame? Toma qu’é p’aprenderes!

Miserável! Miserável! Miserável!

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