Sobre o livro
Esse é o volume 2 dessa trilogia que trata da vida de Zico Rangel. Região do rio Quebra-Rabo, outrora rico em fluxo e em dias de hoje somente um fio de água que ainda conserva o nome de rio.
Então, enquanto Zico Rangel percorre todos os limites e estradas desse mundo entre as suas terras às beiras do Quebra-Rabo e Patos de Minas, Henriques traz à memória um feixe de coisas que viram história. Então, eu quis saber dele as razões porque resolveu escrever esse livro.
Eu já havia feito a mesma pergunta com relação ao livro, Fruta de Leite, uma saga do Norte de Minas Gerais. E tive uma resposta satisfatória que me permitiu levar avante um resumo daqueles três livros que formam o conjunto, Providência, Fruta de Leite e A Dança dos Papagaios Vermelhos.
Então, não me custava fazer a mesma pergunta diante de outra saga, essa do Quebra-Rabo. Esses três livros, todos volumosos, Quebra-Rabo, Quebra-Rabo e A Valsa Torta e Quebra-Rabo e as Serras, compõem esse volume de qualidade indescritível.
Uma beleza de construção sob a forma de romance, capaz de encher os olhos e o coração do leitor.
A pergunta veio no tempo certo e Humberto Henriques me contou com teve que escrever esse livro. Teve que escrever, assim, no sentido de que foi obrigado a escrever. Então, para amenizar a situação, ele me disse, onde já se viu um rio com um nome tão exótico e bonito.
Só se rivaliza com o Quebra-Anzol, outro rio de alcance planetário. O Brasil tem desses limites que não chegam a ser limites, mas um sonho de grandeza excepcional. Por exemplo, O Corgo do Vento, que maravilha de nome para um acidente geográfico. Corgo do Vento é um outro romance publicado pelo autor.
Uma beleza de romance, também com espírito goiano. Na verdade, esse é o mineiro mais goiano que já nasceu nesse mundo. Tirando as obrigações de ver isso, a verdade precisa ser dita. Isso facilita a celebração das cores.
Então, Henriques me disse que viajava duas a três vezes por mês de Brejo Bonito a Patos de Minas. Ia em companhia do avô. Era criança com menos de nove anos de idade.
Quando o terreno mudava de figura, que a terra fazia traços brancos – o calcáreo saltando à flor do chão – estavam mais próximos de Patos e o Quebra-Rabo surgia. Rio abastado. De corrente larga e veloz. As águas sujas.
O avô, pescador amador e que fazia questão que o neto também fosse, parava a camioneta e observavam o vau do rio. A ponte. Diziam que o rio era batuta para pescaria. Henriques ficou com essa palavra na cabeça principalmente nas frases de Antônio Tó, outro pescador daquele mundo do Brejo Bonito.
O tempo passou e o rio sumiu nos funis do tempo. Vinte anos depois, Henriques quis voltar ao lugar. Preferiu utilizar a estrada velha, não a nova. Queria fazer o mesmo caminho dos tempos do avô, Amâncio. E esteve de novo ali no rio Quebra-Rabo. A ponte tinha desmoronado.
Havia uma casinhola de ribeirinhos por ali, uma moita de bambu dando sombra para as galinhas e aquele povinho. Crianças. Para se fazer a travessia não seria mais necessário ponte. O rio tinha água pouca, quase que água de matar a sede de passarinho e sapo.
O carro podia passar sem o menor problema, bastava se livrar de algumas pedras mais maciças. Naqueles dias, Humberto Henriques estava em companhia do amigo Gilberto Ferreira, o famoso Amerquin Gangão, o mesmo que um dia protagonizou o livro Amerquin Gangão no Pacari, outro romance excepcional.
Os dois viajantes estavam diante de um rio que agonizava. Tão pujante no passado, agora com aquele titica de água. Quem podia dizer que uma camioneta podia atravessar o Quebra-Rabo naquele tempo, quando o rio babava escuma por todos os seus cantos?
O rio foi atacado, sem planejamento algum, ia à bancarrota. Em breve estaria seco por completo. Seco e areento. Deserto.
Pois foi nesse dia que nasceu o Quebra-Rabo como romance. Dali daquele ponto onde estiveram a parlamentar com o rio seco, os dois homens seguiram para o sítio miúdo chamado A Contenda. Isso ficava mais para as proximidades de Patos
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