Sobre o livro
O tempo… não precisa “dar um tempo” pra nós”.
Ontem, após longo processo de preparo de extensa documentação para dar entrada em minha aposentadoria de médico, estive matutando: “o tempo todo” lamentamos, culpamos o maldito relógio que corre a tal velocidade, que não conseguimos sequer nos aproximarmos.
O tempo a que me refiro não é de anos, meses, semanas, dias, horas, minutos, é mais (ou melhor, é menos) que isso, traduzindo-se em minutos, segundos e suas frações em décimos, centésimos, milésimos.
Este “senhor poderoso” habita em nós próprios, governa nosso “relógio biológico”, no pulsar de nosso ritmo circadiano, nas mitoses e apoptoses de nossas células, o tempo, além de tudo, é soberano.
Pensando bem, na verdade, somos nós que ditamos o ritmo de nossas passadas, que nos deixamos consumir em nossas ansiedades. Antecipamos de fato os acontecimentos que mal temos “tempo” para viver o dia presente – sim, presente em duplo sentido – e assim ficando “ausente” no “tempo” presente que se passa celeremente. E assim projetamos no “tempo” futuro as nossas angústias ou, regredimos no “tempo” passado das frustrações.
E no final, o sol cansado já se põe esperando que no próximo dia, a gente veja sua nascente ou o crepúsculo, e que entre a luz de um e outro momento, possamos viver na claridade de cada dia, sem blasfemar ou ficar se lamuriando do tempo “que se perdeu”, mas recordar do tempo “que se ganhou” nas ricas experiências e inusitados acontecimentos de cada dia.
E o tempo nos convida a entrar nesta espiral, reproduzida em todos os movimentos de corpos celestes, a ir de um ponto inicial a outro, e retornando, construindo e desconstruindo as crenças, mitos e atitudes em cada parada da nossa caminhada.
Por isso, quando penso em “Partir é encontrar-se”, aflora um sentimento de autodescoberta, com a experiência de sair de si, e de poder vislumbrar outros ares, terras, mares nos traz de contínuo aprendizado no viver.
Para Tennessee Williams “… há uma hora de partida mesmo quando não há lugar certo para onde ir”. Em famosa citação Dom Hélder Câmara nos ensina “… um dos meus anseios de chegar ao infinito é a esperança de que, ao menos lá, as paralelas se encontrem”.
Este verbo “partir” é consagrado por Dom Hélder como uma missão de vida, estar sempre pronto a partir, sem precisar devorar quilômetros, “… é sobretudo abrir-se aos outros como irmãos, descobri-los e encontrá-los”.
E, continua o poeta Dom Hélder “… se para descobri-los e amá-los, é preciso atravessar os mares e voar lá nos céus, então missão é partir até os confins do mundo”.
E porque encontrar-se? Acredito que é nas partidas, seja nos momentos oníricos ou reais, é que se processa o nosso verdadeiro processo de auto-descobrimento, quando caminhamos, deixamos tudo para trás e ousamos sair de nós, quando “quebramos a crosta de egoísmo que nos fecha no nosso Eu”, como nos ensina Dom Hélder.
Partir é, sobretudo, achar-se humano. As partidas nos propiciam encontros inusitados, inesperados a cada instante. Para H. Jackson Brown “… a esperança não é um lugar de descanso, mas um ponto de partida – um cacto, não uma almofada”.
O tempo é um dos aliados das partidas e encontros; mas também das despedidas e desencontros. O tempo é de despertar, a vida é para viver, a morte é para renascer, e este ciclo acontece a cada precioso segundo que o universo nos proporciona.
É pegar ou largar, ou deixar passar… esse “tempo” que flui como gotas de orvalho, como a brisa noturna, como as ondas que choram nas marés, como a criança que com largo sorriso expande o universo. Jean-Paul Sartre argumenta que “…
no ponto de partida não pode haver outra verdade além desta: «penso, logo existo», esta é a verdade absoluta da consciência alcançando-se a si mesma”.
Queridos leitores, esta seleção de versos tem um pouco desta caminhada, de médico e poeta, que descortina os dramas, encontros e desencontros, visões e aprendizados humanos. AjAraujo, o poeta humanista
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