Sobre o livro
A porta da loja rangeu como de costume — madeira antiga tem dessas maneiras — e o sino do batente respondeu com dois tilintares que já eram parte da música da praça.
Fim de tarde em Santa Lídia do Vale Verde tem cheiro próprio: mistura de pó de café moído, maresia de longe que se perdeu no caminho e o sabão de côco que Dona Esperança enxágua nos fundos de casa.
A vitrine da minha lojinha — quem passa sabe — é um arranjo de altar: livros da metade para cima, baralhos e cadernos no meio, e, lá embaixo, os pacotes de vela, os fósforos e as balas de anis, que são mais baratas que conselho e curam mais coisa.
— Entra, meu povo — disse eu, varrendo com uma vassoura curta, daquelas que sabem aonde a poeira insiste em morar. — Hoje tem história. Daquelas que a gente escuta em pé e, quando vê, já tá sentado e com a xícara na mão. Chico Violão encostou no batente com o sorriso de canto.
Rosinha, a esposa, apareceu logo atrás com três pastéis embrulhados num guardanapo rendado — porque em Santa Lídia até pastel gosta de aparecer bem-vestido. A menina Joana, que estuda jornalismo na capital, puxou uma cadeira de palhinha, tirou caneta, caderno e vontade de aprender.
Padre Augusto cruzou a praça devagar, o chapéu na mão, como quem não quer se meter mas, se for preciso, benze a conversa antes que ela cruze o sinal. — Vai ser de amor? — perguntou Rosinha, piscando. — De amor, de medo, de promessa e de avião — respondi, ajeitando o avental florido.
— História boa tem que ter de tudo, senão não firma no coração. E essa começou lá em cima, na colina da fazenda, quando Santa Lídia ainda acordava com cheiro de café e chuva lavada. A loja é pequena, mas cabe mundo.
Do lado esquerdo, as prateleiras de madeira guardam romances, poesias, um ou outro receituário de bolo e uns santinhos perdidos que alguém sempre compra “para presente”.
No balcão, uma máquina de pesar que já pesou muito feijão e agora mede cartas para o correio; atrás de mim, os envelopes e os barbantes — reparo antigo que me ensina que tudo o que vale a pena precisa de laço.
No canto, um rádio de pilha que teima em pegar a rádio de Cataguases; quando a música sai chiada, eu deixo assim mesmo, porque memória também vem com ruído. — Dona Margarida, posso acender? — disse Seu Benício, o artesão de retrancas, apontando para a tomada do lampião de balcão.
— Pode, homem, que história pede luz de dentro — e acendi a chaleira. Café coado é pausa e caminho: a água aprende o pó, o pó ensina a água, e os dois viram companhia.
Coloquei na mesa uma travessa de biscoito de polvilho e duas fatias de bolo de fubá; quem chora tem repeteco, sempre foi regra da casa.
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