Os Bálsamos de Santa Fé

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

O romance Os Bálsamos de Santa Fé, texto de grande fôlego, trata da vida de dois anciãos, cuja juventude foi promissora e festiva, movida a vinho, mulheres e folguedos.

Nascidos os dois em emblemático berço de prata, pedaços alguns de ouro, os dois apresentam suas insígnias e entendem que na vida o que deveras importa é mesmo rosetar.

Assim, como dizem aqueles que são do ramo e sabem que algumas criaturas se mantêm assim, de forma inexorável, pelo restante de seus dias, mesmo depois que já estão avós e quase bisavôs. Os artigos mais caros de consumo fazem parte de sua existência e isso lhes parece mesmo fundamental.

Sem esse esforço de suas saudades e suas excelências no modo de agir e pensar, a vida perde a graça. Mas tudo muda durante a jornada. Esta jornada é o que chamamos, quando mais sonoros de psique, de atributo da existência e seus legados. A frase é minha.

Não é tomada de nenhum sentido religioso ou filosófico, por isso, soa assim, de maneira muito visceral e pragmática. Esse romance precisa ser examinado em seu conteúdo com bastante critério e cuidado.

É um livro alegre, cheio de cores, não obstante as ações e reações que são acudidas ao longo do entrecho.

Diante do tempo inexorável, já septuagenários, as duas personagens resolvem se dedicar a uma viagem em direção ao Sul do país. Vão em busca de Porto Alegre. Entretanto, a vida não é mais a mesma e os inconvenientes, as saudades e as amarguras principiam a boiar nesse cadinho de eviscerações.

Deve ser imaginado o mundo de incongruências que os dois homens encontram em sua jornada. Seu caminho não é mais o mesmo, os recursos financeiros não são mais tão abastados. Tudo é restrito.

As mulheres que imaginavam que fossem encontradas pelo caminho, louras estigmáticas e desejosas, tudo se transforma num grande desperdício de tempo, em um pandemônio de amarguras que custa – e muito – a lhes chegar e forma frontal.

Quando se apercebem nesse imbróglio espesso, já é muito tarde para dizer que fizeram uma escolha errada. Entretanto, são muito diversos os modos de se pensar a história. O autor não entra em nem um momento nela.

Não entra e deixa que a trama corra frouxo. Que tudo seja deslindado de acordo com os acontecimentos que seriam próprios de uma aventura assim. O que há de mais cosmogônico nesse livro talvez seja a dissolução imposta pelo tempo à própria memória.

A reconstrução da memória é uma tarefa de sabor muito áspero. A reconstrução do ponto de vista da repetição. Querer que tudo seja como antes, como um dia foi, é tarefa para migrantes da razão. Há nisso uma infantilidade incongruente, um perene desafio à vida e um risível desconforto diante da morte.

Ambas as personagens estão sujeitas demais a esse contraponto. Em tudo que estão a planejar há a sombra de um mundo anterior que foi bastante feliz.

Na verdade, esta viagem tinha sido feita nos bons tempos em que mantinham suíças e bigodes de cor nativa, não o grisalho que lhes acudiu desde o momento em que resolveram engendrar esse passo ao Sul do país, lugar estivado de mulheres excepcionais.

A vida que se vive nesse compêndio inteiro, Os Bálsamos de Santa Fé, é uma eternidade que começa de trás para diante. Como se fato isso fosse possível. Os dois anciãos percorrem todas as dificuldades inerentes a um mundo que seria muito cômico, isso se acaso não fosse trágico e deteriorado.

O que lhes acontece mantém um desafio permanente enquanto percorrem os caminhos. A razão está conturbada, em ambos os desafios parecem uma palavra com outro significado.

E durante todo o percurso, como o texto não é linear – como mesmo acontece em grande parte dos romances de Humberto Henriques – e não temporal, as variações de uma vida anterior vão sendo elaboradas de acordo com a persistência e com o espírito dos dois cavalheiros.

Homens que se esqueceram de deitar ao largo de si mesmos toas as possibilidades que não podem jamais serem repetidas enquanto a vida entra no caminho e deve seguir avante. A dinâmica de tudo está

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