Onze do Nove

Por Steffan Edward

Sobre o livro

Sinopse, por Johann Freire Uma série de escolhas erradas e mal-entendidos é o gatilho para o acidente em viaduto que deixou mais de trinta mortos em Ribeirão Preto. A memória coletiva desta catástrofe, no entanto, acabou sendo solapada por outra, ocorrida no mesmo período: 11 de setembro de 2001.

Mas não para os que, direta ou indiretamente, viram-se enredados no acidente e depois envenenados por doses mais ou menos cavalares de culpa.

É para diluir essa culpa — na impossibilidade de extingui-la — que surge a necessidade da composição de Onze do Nove, primeiro romance de Steffan Edward, autor dos contos de Carne viva. Afinal, como sintetizou a escritora judaico-russa Ayn Rand, “a pior culpa é aceitar uma culpa imerecida”.

Para atingir seu objetivo, o narrador lança mão de engenhosos recursos estilísticos, técnicas provenientes da destilaria faulkneriana: deslocamento de perspectiva, emulação de vozes, estruturação — aliando, sempre, conteúdo e forma.

E — talvez o mais importante — um apreço ao pormenor, ao detalhe sorrateiro que, quando identificado, ilumina, cria novas reverberações dentro da organicidade do romance, mas sem o que de nada prejudica a fruição nem o entendimento da trama. A primeira impressão, portanto, nunca é a que fica.

É preciso amadurecer o olhar. Todo romance é um inventário, um catálogo de obsessões. Todo romance promove, também, uma investigação, e dela é fruto. Ao analisarmos os acontecimentos mais determinantes em nossas vidas, fortuitos ou não, é natural nos perguntarmos: e se?

E se as aulas não tivessem sido interrompidas por conta de uma infestação de cupins no prédio da escola? E se a câmera fotográfica perdida não tivesse sido localizada? E se o avô tivesse se recusado a ficar com o neto durante a ausência dos pais? E se? O que mudaria?

Quais consequências outras nos trariam? Causa e efeito. Ação e reação. Determinar a origem das nossas escolhas, dos nossos impulsos, é, no limite, nos isentarmos de qualquer responsabilidade.

Porque cada movimento pressupõe um anterior, que lhe serviu de estímulo; cada resposta nasce de uma pergunta prévia; cada tempestade é derivada de um sopro aparentemente inocente. Os personagens de Onze do Nove não se deixam iludir por essa falácia retórica.

Pelo contrário — e aí está a tragicidade que permeia todo o livro, mesmo nas passagens mais abertamente cômicas: eles sabem que nada é capaz de alterar a concretude dos fatos, por mais duvidosos que sejam seus relatos.

Na realidade, como diria O Bardo pela voz de Hamlet, “se tratarmos as pessoas como merecem, nenhuma escapa ao chicote”. Ao final, o veredicto é: somos todos culpados, de uma forma ou de outra. Mas, em compensação, não estamos sozinhos nessa.

Onze do Nove aponta para algumas possibilidades de redenção.

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