OLHOS DE ÁGUIA: Amor e Guerra entre o Sertão e os Apeninos
Por David QuidfiliSobre o livro
Olhos de Águia é um romance histórico de forte densidade literária que atravessa dois mundos — o sertão nordestino e os campos de batalha da Itália na Segunda Guerra Mundial — para narrar não apenas a experiência de um soldado brasileiro no front, mas o destino de uma voz que sobrevive ao silêncio.
A história se inicia décadas após o fim da guerra, quando Marco, jovem cearense, encontra uma antiga caixa de lata guardada por sua mãe.
Dentro dela, cadernos, cartas e objetos revelam a trajetória de Ricardo Aguiar, pracinha da Força Expedicionária Brasileira, cuja escrita seca e precisa reconstrói a guerra a partir de dentro: o frio dos Apeninos, a exaustão da montanha, o peso das decisões, a morte sem heroísmo e a lenta transformação do homem comum em alguém marcado para sempre pelo que viu.
Ao longo da campanha italiana — de Monte Castello a Montese, de Collecchio à rendição final —, o romance acompanha Ricardo não apenas como combatente, mas como observador agudo do mundo, capaz de ler o terreno, os homens e o erro.
Nesse percurso, surge Fiamma, partigiana italiana cuja presença desloca a narrativa para além da guerra, introduzindo um eixo afetivo intenso e complexo, em que amor e sobrevivência se entrelaçam sob o risco constante da perda.
Entretanto, Olhos de Águia não se encerra na vitória militar. Ao retornar, o protagonista encontra o silêncio: o apagamento institucional, o esquecimento coletivo e a incapacidade do país de acolher aqueles que lutaram em seu nome. Ferido e isolado, Ricardo segue outro caminho — mais íntimo e mais trágico —, até que sua voz se transfere definitivamente para os cadernos que deixa para trás.
É na leitura desses cadernos que o romance encontra sua forma plena. O filho que não conheceu o pai torna-se o herdeiro de sua memória, transformando o ato de ler em gesto de restituição. Assim, a obra articula três camadas narrativas: a guerra vivida, o silêncio posterior e a reconstrução da história por meio da escrita e da leitura.
Com linguagem sensorial e forte materialidade — marcada por objetos, paisagens e gestos —, o romance evita o heroísmo fácil e aposta na experiência concreta da guerra e de suas consequências. Ao mesmo tempo, constrói uma arquitetura simbólica consistente, em que elementos como o olhar, a caixa, o caderno e a carta operam como núcleos de memória e transmissão.
Olhos de Águia insere-se na tradição do romance de guerra, dialogando com referências clássicas internacionais, mas distingue-se por sua perspectiva brasileira e por integrar à narrativa bélica uma dimensão de filiação e legado ainda pouco explorada na literatura nacional. Ao final, o livro afirma uma ideia central: a guerra pode impor o silêncio, mas não consegue eliminá-lo completamente. Algumas vozes permanecem — aguardando ser lidas.
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