O Útero Biopolitico

Por Miriam Kênia Carvalho

Sobre o livro

O conhecimento que não pode ser desfeito – Helena Katz O contato cada vez mais intensificado com as telas produziu sujeitos que se habituaram a agir a partir de si mesmos, deletando o que não lhes convém, cancelando quem discorda ou questiona.

Este se tornou o ambiente no qual vivemos, e faz com que seja ainda mais relevante o que Miriam Kênia apresenta nesse livro.

Ela não somente demonstra que ainda é possível ser solidária ao sofrimento do outro e realizar lutas coletivas, como também expõe o seu compromisso ético com a pesquisa, ao escolher investigar um acontecimento capaz de sacudir o adormecimento da sociedade para uma violência que a indústria farmacêutica mantinha apagado, e que precisa ser contada a todos.

É com uma reflexão crítica potente, desenvolvida no seu percurso acadêmico, e de um fôlego incansável, característico do jornalismo investigativo praticado na sua vida profissional, que reescreve a falsa história que a gigante multinacional Bayer vinha sustentando a respeito do Essure.

Trata-se de um dispositivo de contracepção, que foi implantado nas trompas de mulheres que foram atraídas pela promessa de um procedimento indolor, inovador, permanente e, acima de tudo, seguro, mas não foram informadas dos terríveis danos que poderiam ocorrer.

Sua reflexão também expõe a covarde omissão em socorrê-las, praticada de forma injustificável por instituições médicas e jurídicas.

Ao apresentar a união das vítimas do Essure como o tipo de ação democrática capaz de enfrentar a mentira e a violação de direitos praticados pela Bayer em benefício próprio, restabelece a força do agir em comum.

Isso é importante nesta época de aceleração constante, em que tudo se move tão depressa que não sobra tempo para praticar a colaboração. E assim, ativa a esperança na construção de um mundo no qual o bem comum pode florescer.

A democracia ainda não nos protege das injustiças nem da atual incapacidade em extirpar as desigualdades, mas nos ajuda a não sermos tomados pelo perigoso sentimento de inevitabilidade. O medo retira da esfera política e retém no campo individual.

Por isso também, é indispensável compartilhar e confiar que junto se modifica o que parece ter sido sempre assim. Os grupos de vítimas do Essure resistem reivindicando seu direito à sobrevivência com saúde, o que implica na reparação dos danos que lhes foram causados.

Suas campanhas e manifestações comprovam a potência que as denúncias podem ter, por exemplo, sobre as formas de medicalização da mulher, em um ambiente dominado por gigantes da indústria farmacêutica em um de seus campos mais rentável, o da Saúde Feminina.

Vale a pena observar a sua escolha por nomear de ‘corpos com útero’ os corpos que sofreram os abusos.

Não somente por destacar que o útero, no capitalismo colonial, fica reduzido à sua função de procriar, como sublinha Preciado (2020), mas sobretudo, por demonstrar a sua militância em incluir, sob a denominação de ‘mulher’, também os corpos sem útero que assim se autodenominam.

Esse tipo de escolha, que não é somente um detalhe, faz parte do conjunto de aliados com quem Miriam Kênia elegeu caminhar, sempre fora dos eixos habituais, heterossexuais e normativos, que estruturam os discursos dominantes sobre a questão da contracepção.

Sem deixar de alertar que a questão da qual trata é biopolítica e farmacopornográfica, uma vez que faz parte da gestão política da vida (e da morte, como atestou), demonstra como as indústrias farmacêuticas mantêm esse controle com os dispositivos tecnológicos que não cessam de inventar e implantar.

O que Miriam Kênia nos oferece, com esse livro, é aquela oportunidade única que encontramos nos atos de adesão que deixam de poder ser desfeitos.

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