O Túmulo do Candango Desconhecido

Por Luís Fulano de Tal

Sobre o livro

Em fevereiro de 1959, domingo de Carnaval, no alojamento da empreiteira Pacheco Fernandes, que construía o Palácio do Planalto, houve um massacre de trabalhadores. Naquela noite, uma unidade da GEB- Guarda Especial de Brasília- invadiu o local e fuzilou os que ali se encontravam.

Nunca se soube o número exato de mortos. De madrugada, caminhões basculantes carregavam corpos que eram enterrados em lugares ignorados. Cinquenta anos depois, o narrador volta à Brasília por desvendar as circunstâncias da morte de seu tio Epaminondas, ferido mortalmente no massacre.

Querendo descobrir as reais circunstâncias do fato, numa viagem ao passado, entrevista operários com idades entre 80 e 90 anos, que trabalharam na monumental obra, e foram testemunhas daquele fato.

Homens vindos dos nove estados do Nordeste e um mineiro, origem daquela massa de trabalhadores, alcunhados candangos. Cada um conta sua história de vida antes de vir trabalhar no planalto central. O primeiro depoimento é de Ciro, um sergipano oriundo da cidade de Samambaia, sul de Sergipe.

Filho de uma família de quinze irmãos, todos com o nome iniciado na letra c, porque sua mãe só estudara até a letra c. Já adulto, Ciro batiza seus dez filhos só com a letra R, por ter estudado só até o Rê. Fugindo da exploração e do analfabetismo, Ciro vai bater em Brasília.

Quanto ao massacre, diz ter ficado quieto e se fingido de morto. E que era perigoso falar naquele assunto. O segundo a depor é um baiano, que diz que nunca teve a carta do abc, mas burro não era não. E que sempre trabalhou, pois até Cristo trabalhara com o pai como marceneiro. E perguntava.

Como um homem podia trabalhar sem receber a paga de seu dinheiro, como? Quanto ao fato diz que deu sorte, pois estava num alojamento bem longe de lá. Só sabe que chegaram atirando e foi bala pra lá e pra cá. O terceiro que fala é um cearense de 82 anos por nome de Orélio Saraiva Dantas.

Vulgo Ceará Véi, Orélio Ceará, Orélio Cariri e Orélio Bode Ioiô. Diz que o fuzilamento foi com o pessoal da Pacheco Dantas, e que a metralha foi perto da mureta.

O quarto a narrar é o negro paraibano José Pedro João dos Santos, que não escrevia e nem muito mal rabiscava o nome, por ser do tempo do ronca e dos antigos. E quanto ao fato, diz que aquilo foi uma tragédia e um assassinato.

Em seguida, vemos os depoimentos de Radamés Nunes, nascido no Piauí, e que finaliza dizendo que ali azedou foi a boca da égua, que aquilo foi um balaio de gato, feio, confuso, e onde se matou foi é muita gente.

E depõe também o alagoano natural de Palmeira dos Índios, que relata o que era a escola pública antes e depois da administração de Graciliano Ramos, prefeito da cidade. E quanto aos fatos, diz que deram tiro demais e pra tudo quanto é lado.

Depois temos a fala de José Batista Barros Neres, o Zé Neres, que por ser o oitavo filho de uma família de sete mulheres, a fim de não virar Lobisomem, foge de Codó, Maranhão, vem construir Brasília, e que segundo os seus cálculos, naquele dia morreram 120 pessoas ou mais.

Já Domingos Sebastião, natural de Itinga, Minas Gerais, foge pra Brasília, pra não ir pro hospício como seus irmãos, como fez o seu primo Soroco, que internou sua mãe e sua filha. E calcula pra mais de 70 mortos e dezenas de feridos naquele dia fatídico.

Bertrando, natural de Orocó, vizinha de Cabrobó, sertão de Pernambuco, diz que não podia contar nada do fato porque não viu nada. Tinha recebido, estava bonito, e passou o sábado e domingo em Luziânia entre as pernas das putas, e não quis dizer nada pra não inventar conversa sem pé e sem cabeça.

O último entrevistado foi o José Bonifácio, ou Zé Boni, ou Boni somente. Natural de Pau dos Ferros, Rio Grande do Norte. Alega não saber de nada, e que se procurasse a família de Zezé Nascimento, Antônio Calmom, Neco de Caruaru ou um taxista qualquer poderia falar daquele assunto.

E que deixasse de conversar merda! Nada podia dizer, nada! Não sabia de nada! Nada! E Pronto! E acabou-se!

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