O pretume da rua e a saudade que tenho

Por João Ernesto Mota

Sobre o livro

O pretume da rua e a saudade que tenho

A invisível camada de sedimentos entre as frestas Das pedrinhas de asfalto da roberto freire Só é invisível para quem apressado passa em seu automotivo modo de se encaminhar de um lugar a outro.

A sola da chinela gasta pelos tempos e terrenos e temperaturas e pisadas de uso E a cidade que proporciona o som compassado dos meus passos nem tão compassados quando voltava do Pedrão cantando com um amigo que não vejo há anos De sonho De sangue e de américa de um sol que encabula minha pele.

Os sonhos, os “ãos” que ainda vou dizer com meus gestos abertos por ora tão fechados por toras de madeiras pesando em meu ombro a voltar pra o que não chamo mais de casa Por carrancudos “bonsdias” que ainda arranco de um potiguar cisudo que me olha desconfiado e devo parecer a ele um português ao selvagem antropófago Ou um chato incoçável.

A roça da infância marcada pela falta De um estranho eu pulando de casa em casa De braço em braço que deixou escorregar alteridades mil O cio da terra que não conheci .

Há espíritos de encanto Enterrados ao chão feito sementes Que retornam como o vento que alisa a areia doutras dunas que um dia foi essa Capa-asfalto preto de lutas, ideias trabalhadoras do gueto O vento de sementes dos rios que encobrem Lençóis freáticos tão profundos quanto as ancestralidades De outros tempos.

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