Sobre o livro
Benjamim, que brilho é este em teus olhos onde transparecem vida e solidão? Que choro é este teu, de mel amargo, às vezes, num dia somente teu? Aceitar as dores dos teus anjos e demônios, os espantalhos que te aviam, tempestuosos, repentinamente à tua porta?
Que lamento é este teu, de farpas e perguntas, e ventre explodindo num grito social, secular? As garças amarguradas à beira d’um rio velho, contando a história de segundas vidas enquanto a avó dança no quarto agarrada à friagem. Fiz um mergulho intenso nesta obra.
Difícil não se ater ao todo desta lavra. Encontrei uma nave estelar no coração do poeta. Ishiguro conjuga verbos em quinta e sexta dimensões – guardião do passado para mais adiante, já de carne envelhecida, buscar nos alpendres da infância o testemunho da pulsação do seu tempo.
A bússola inquieta nos origâmis vigilantes sacraliza água divisória em noites largas, açoitando espaços temerosos da infância onde ventos sonoros correm à mesa de cear com os espíritos.
Adolescer em Monte Alegre entre avoantes em jardins amorosos, silêncios carmim em pergaminhos eternos no peito da mãe, Benjamim, o filho da felicidade, fulgura feito astro luminoso ancorado em sangue herdado e repartido, porque a garganta arde em flor sob tempestades de chuva fértil.
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