Sobre o livro
O BRUTALISTA — Casuística do Concreto
São Paulo, 1984. Um condomínio brutalista, quatro portas e um hall. Às 21:18 e às 21:39, a cidade aplaude o telejornal — e a janela sonora onde rotina vira crime se abre.
Três narrativas autônomas e conectadas revelam um noir-procedural em que hábito é vilão e método é defesa. Aqui, lacres, carimbos, PABX, VHS e Livro de Ocorrências valem mais do que versões.
As histórias
- A Chave 27 — A síndica, Dona Eunice, aparece morta na escada de serviço. Um apagão de 20:21–20:26 e um salto de 2min09 no T-120 do elevador criam a janela.
Pistas convergem: Chave 27 retirada às 14:59 e “devolvida” às 20:47 por mão não identificada; lacre da corta-fogo quebrado e “vernizado” com material barato; rasura no Livro entre 20:05–20:10; ligação do ramal 00-ADMIN para o 1002 às 20:27.
Verniz comprado na Mooca e um impresso mimeografado de Sônia usado como calço fecham a logística do crime.
- Quarto 1202 — Helena Bittencourt é encontrada sedada num quarto “trancado por dentro” após um coquetel. A linha do tempo inclui a chamada 00-ADMIN → 1203 às 20:27:04.
A Taça A carrega barbitúrico de ação intermediária e benzodiazepínico; testes mostram a simulação de tranca com monofilamento (≤2 min; VU ~ −18). O adesivo do friso bate com o lote novo da administração (TLC ~0,62). Um guardanapo com anil de mimeógrafo mantém a prumada entreaberta durante o apagão.
O culpado domina rotinas, lacres e horários.
- A Taça A — Ariosto, ghostwriter de Helena, narra após o lençol: ele cai (ou é “dirigido” a cair) sob a cobertura dos aplausos das 21:39.
Luís (1204), o “mordomo” de procedimentos, filtra chamadas por símbolos, datilografa respostas, guarda cofre e cena; a VHS do 1203 grava o pátio, enquanto reflexos (TV/aparador um palmo para dentro) alteram a leitura óptica.
Clarice (1201) lacra a cópia do manuscrito em armário de aço de duas chaves — para que a lenda não engula a voz. Papel pesa menos que boato.
Por que ler
- Noir urbano de cenário único: o prédio como mapa de hábitos; a cidade, como ruído.
- Prosa-perícia: emoção pelo detalhe (hora, cheiro, ruído), não pelo discurso.
- Procedural rigoroso: mídia lacrada, cadeia de custódia e timelines precisas — sem milagres narrativos.
- Tramas autônomas que se iluminam mutuamente (pistas e personagens retornam noutros ângulos).
Autor & Obra — quando o procedimento vira literatura
Ladislau Theodor foi escriturário e revisor técnico no serviço público por três décadas. Aposentado aos 50, levou o protocolo para a página: escreve como quem abre um processo, monta cenas como autos e prefere registro a opinião. Sua biografia informa a estética: lacres, horários e hábitos não são ornamentos — são o coração do suspense. Aos 55, Ladislau assina um noir em que o método, executado com precisão, ainda pode vencer a lenda.
Leitura ideal para quem prefere método a milagre e prova a versão. Suba ao 12º: duas palmas por noite, uma luz verde no hall — e um condomínio inteiro tentando lembrar sem sobregravar.
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