Sobre o livro
PREFÁCIO
Muitos pensam que quem faz um prefácio está se dando ares. Pois eu estou é tomando ares no meio da rua de Nei Duclós, que é esta mesma rua de todos, tão poluída mas tão salutarmente viva de gentes e de cartazes reivindicatórios.
O primeiro poema que li, de Nei, assim começava: “Olhem o animal da palavra”. Era eu. No tempo em que ele o publicou não pude agradecer-lhe.
Pois foi quando se dera na Europa e nas Américas aquele histórico e súbito movimento de maturidade e independência dos jovens – os quais se apresentavam de longas barbas, não para imitarem seus venerandos avós, mas sim, creio eu, numa espécie de reencarnação do homem das cavernas -, visto que era preciso recomeçar tudo.
Ora, como eu ia dizendo, não pude agradecer pessoalmente ao poeta, pois jamais conseguia diferençar um barbudinho de outro. Sei que agora ele está barbilampinho. Mas noutra cidade, onde diz coisas assim:
“Não posso deixar de trair o meu sossego”.
Eu já ia citando outros versos, mas pergunto-me por quê ou para quê. Ninguém gosta que o levem pelo braço, apontando-lhe o que há para ver. Esses encontros, especialmente os consigo mesmo, devem ficar por conta do leitor. E depois, quem é que lê prefácios?
MÁRIO QUINTANA
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