Sobre o livro
Meu jovem amigo, faça da imaginação o médico da família, o timoneiro “condutor; comandante; orientador” de todos os serviços, o conselheiro, o guia, o amparo, a força, a base da felicidade do lar. A questão é orientá-la tão bem e com tanta solidez, que produza todas as benéficas autossugestões.
Cultivar bem a imaginação é florir a mesa, iluminar toda a casa, derramar a alegria em todos os recantos; é estabelecer a ordem sem opressão “autoritarismo; prepotência; injustiça;” é firmar a paz sem esforço; é tornar fecundo todo o trabalho sem amargas canseiras “antipatias; desamores; aversões; dominações; desgostos; aborrecimentos; tristezas.” Assim se consegue realizar ditosamente “felizmente; agradavelmente; alegremente” o justo ideal da abastança “riqueza; abundância,” da satisfação íntima, da felicidade que vem da conquista de tudo que nos basta, permitindo-nos que tenhamos préstimo “utilidade; serventia” para colaborarmos no bem comum.
Contudo, vou ler-lhe o que um filósofo do século XIX diz sobre a felicidade proporcional aos haveres “posses; riquezas.” A felicidade tem gradações conforme os temperamentos.
“Quando numa reunião, onde à porfia “competição; rivalidade” todos exibem opulências “riquezas,” nos sentirmos humilhados, porque notam, sorrindo, a nossa roupa usada, pensemos se trocaríamos de bom grado pela vida deles a nossa, honesta, criteriosa, generosa.” A melhor prova de filosofia é contentarmo-nos com uma fortuna medíocre.
Só quem sabe viver com pouco pode assegurar a probidade “dignidade; honra; honestidade; nobreza; franqueza” e a coragem que as situações difíceis exigiriam.
Só essa pessoa, tem, quanto possível, a virtude “grandeza; dignidade; honra,” o repouso e a felicidade ao abrigo das vicissitudes “adversidades; eventualidades; instabilidades; desgraças” da sorte e dos caprichos dos seus semelhantes.
Há instantes em que o desejo das riquezas penetra na vivenda do sábio, não pelo pueril “fraco” e perigoso anelo “desejo” de deslumbrar os outros, mas pela sedutora esperança de ser útil aos outros.
Quando a imaginação cria quimeras “sonhos; ideias” risonhas “alegres; agradáveis; prósperas; divertidas; esperançosas; promissoras,” pensa-se algumas vezes nas riquezas, e então é digno de inveja quem sonha. Realmente, vasto é o horizonte de alma dos ricos que amam o bem comum.
Podem acelerar os progressos das ciências, das letras, das artes. Podem auxiliar os jovens que revelam vocações felizes, mas cujo caráter, de ordinário tímido e reservado, estorva “impede; atrapalha; confunde; dificulta” todos os bons êxitos.
Podem tornar confortável e abastada “rica” a vivenda do velho que consagrou toda a vida ao estudo, não pensando no dinheiro, enriquecendo os outros com as suas descobertas e invenções.
Sem comprometerem os seus rendimentos, os ricos podem enxugar muitas lágrimas, extirpar “eliminar; destruir” muitos vícios, conquistar glórias e inefáveis “encantadoras; maravilhosas; indescritíveis” alegrias íntimas.
John Blatt, já levantado, disse ainda: – Mas temperemos o que fica dito com esta frase de Platão: “Parece que o ouro e a virtude estão nos pratos de uma balança. O ouro está num dos pratos e a virtude está no outro.
Não se pode aumentar nada ao peso do primeiro, que não diminua logo muito o peso do segundo.” E, meu jovem amigo, fique digerindo isto na meditação, porque a meditação está para o espírito como a digestão para o corpo.
E, sacudindo-me num forte aperto de mão, John Blatt saiu com a sua habitual agilidade e cortesia, a caminho do seu lar.
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