Memórias de um canibal: Um ensaio sobre coerência e ruptura

Por Armando Barsotti

Sobre o livro

John Ridgway Bundy é cirurgião, claudicante, batista e assassino. Não necessariamente nessa ordem.

Nas páginas de seu confessionário particular — escrito numa noite de insônia enquanto um bebê chora no apartamento vizinho —, John narra quarenta e dois encontros com aquilo que chama de Es denkt in mir: algo pensa em mim. Uma voz que não é delírio, não é Deus, não é escolha. Ou talvez seja tudo isso ao mesmo tempo, e a diferença entre as três hipóteses seja apenas a filosofia que se usa para justificá-las.

Memórias de um Canibal é um romance que atravessa a infância violenta num condado rural americano, a amizade com um menino gay chamado David Turing, a construção meticulosa de um defumador no vale da morte e um duelo de xadrez filosófico com uma avó terminal que guarda, há décadas, um dossiê sobre o próprio neto.

Com Aristóteles, Kant, Espinoza e Platão como interlocutores involuntários, John Ridgway Bundy constrói uma das defesas mais perturbadoras da literatura recente — não a defesa de um crime, mas a defesa de uma arquitetura: a ideia de que entre compulsão e vocação, entre pecado e neurologia, entre o livre-arbítrio e o gene MAOA, a fronteira é uma linha que traçamos depois, para que a história faça sentido.

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