Sobre o livro
Escrevo porque te amo, de Alex Sgreccia, conta a história de Rebeca, reconstituída a partir de fragmentos, como as fotos encontradas pelo filho, ao voltar à casa da família, depois da morte dos pais. Não é uma biografia com começo, meio e fim, narra partes dela.
Sua infância e adolescência são resgatadas a partir de estórias ouvidas e pelo trabalho criativo do autor, que preenche lacunas da trajetória com a versão onde o narrado e o imaginado se fundem e se confundem.
No entanto, o foco principal do romance são os anos de sua transformação numa mulher encantadora, buscando escapar do sortilégio: Non sarai felice mai pìu!
Os anos de amadurecimento envolvem a breve experiência como professora, o namoro com Leonardo e a abrupta separação, provocada pelo fato em parte revelado e parcialmente encoberto.
Os meses passados na fazenda da tia dão continuidade ao amargo aprendizado que aos poucos revela a condição feminina no mundo dominado pelos homens, onde as mulheres podem pouco.
A reflexão e as descobertas que faz de si mesma são mediadas pelas relações com o primo Tiago, por quem se apaixona, e pela leitura de romances indicados pela tia, com os quais narrador e personagem dialogam.
O romance também reconstitui a história de Leonardo, personagem que dá sentido à vida de Rebeca.
Narra a origem humilde da sua família de imigrantes italianos, o duro trabalho desde pequeno na chácara dos pais, a discriminação e o preconceito sofridos por parte da elite da sociedade enraizada no poder dos coronéis, onde o mando, o compadrio, o clientelismo e a violência permeiam as relações entre facções que disputam o poder local.
Esse ciclo secular é interrompido com a chegada do interventor do governo Getúlio à cidade, momento em que Leonardo amadurece o aprendizado da política, depois de ter percorrido o processo de lenta e persistente ascensão social.
Seu namoro com Rebeca coloca-se como divisor de águas entre a vida amorosa dissoluta e a pretendida redenção através do casamento. Fatos mencionados na trajetória dos dois personagens servem para situar sua vida no tempo histórico.
São a moldura do quadro onde o que interessa é o retrato dos personagens, principalmente o de Rebeca, o mergulho em sua alma, a busca por compreender as confusões do seu coração.
Passagens do cotidiano, em si despojadas de grandeza, são descritas com a preocupação de “tornar interessantes episódios pequenos”, enquanto é tecida a trama que vai ganhando sentido.
Os pequenos acontecimentos, os gestos e atitudes dos personagens, revelam parte de sua subjetividade e, ao mesmo tempo, situam a vida nos rincões do Sul de Minas no início dos anos quarenta. *** Navego como errante pelo tempo. Não me acostumei ainda com suas bordas.
Às vezes, me perco neste vai e vem. Na vastidão que não separa o dia da noite, volto sempre a este lugar para estar mais perto de você.
Leio o romance que está escrevendo e me deixo levar pela maneira como narra minha vida, sentindo minhas emoções e interpretando meus pensamentos como se você fosse eu mesma. Existe declaração de amor mais verdadeira?
Observo as páginas soltas sobre a escrivaninha como pedaços da minha história que ficaram para trás ou como devaneios que habitaram meus sonhos. Revejo as cenas e já não me espanto. Leio-as ao acaso, sem me preocupar em demarcar seu tempo.
Nem me preocupo se os sentimentos que narra tenham sido exatamente os meus. Isso agora não faz sentido. Às vezes me confundo, não sei se essas lembranças foram o que meus olhos leram ou o que viram em minhas andanças sem fim, de um lugar para o outro. *** Alex Sgreccia é do Sul de Minas.
Mora em São Paulo. Escrevo porque te amo é sua primeira incursão no romance.
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