Enterre–me

Por Marcela Monaco

Sobre o livro

As cores representam nossos sentimentos, mas não no sentido austero do senso comum, e isso porque, para ela, o vermelho não representava o amor, mas a dor.

O amor, sim, era negro, como minha pele e meus olhos, como a imagem que víamos quando nos beijávamos e como o céu noturno que apreciávamos deitados no capô do carro, em completo sigilo. Mas desde que a matei acidentalmente no solstício de verão, não vejo cor alguma, senão o cinza apático.

Deixei de me interessar pelo mundo, pela Cratera de Baltimore e pelos estudos de meu idolatrado físico, Vincent Willford. Deixei de visitar o cemitério. Nunca fui lá para vê-la, porque de nada adiantaria levar flores a alguém que não agradeceria, porque estava morta.

Eu me tornei esse jovem empedernido que nada evolui, mas nada mais também decai. Estou com meu lócus no muro à frente, e ele é cinza. Não procuro ou me empenho em contorná-lo ou enfrentá-lo, porque me é cômodo essa nova forma de experienciar o que restou da vida.

Eu não pude estar no velório dela, mas foi melhor assim. Para não a enterrar, eu enterrei minhas cores – meus mais profundos e sinceros sentimentos. Dessa maneira, eu posso sobreviver sem me desfazer em tonalidades aterradoras, que nunca a trarão de volta aos meus braços.

No entanto, minha sanidade mental veio me alertar que, por mais que eu não seja colorista, ainda há em mim o que tanto me empenhei em enterrar no fundo de meu âmago, mas isso eu não desejo reaver em hipótese alguma. Abstenho-me dos sentimentos, se isso significar não a enterrar.

Eu só não posso e não quero enterrá-la.

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