Sobre o livro
O caríssimo leitor que se debruçar sobre as páginas deste livro ficará a par de uma história marginal e sem paralelos no cenário pátrio, história que o autor conta com minúcia rara e farto registro de fontes e depoimentos. Uma trama inusitada que junta música, dança, comportamento e mercado, e que gerou um fenômeno social, para além da cena cultural simplesmente. Zeca Baleiro
*** No começo dos anos 2000 um jovem se Santa Inês/MA, ganhou a mídia nacional cantando o amor. Sem muita novidade, que jovens cantando o amor são a cerveja da festa. O que chamava atenção neste jovem era seu nome e o que ele levava: Lairton e seus Teclados.
Era o auge de um movimento musical que se desenvolvia no Maranhão e outros estados do nordeste desde o final dos anos 1980 e que alguns batizavam como as antigas serestas e outros com menos pudores chamavam mesmo de brega.
Em ritmo de seresta: música brega e choperias no Maranhão, parte da pergunta de como o teclado tomou de assalto a música popular local e formatou um novo gênero, um novo movimento, um novo mercado.
Brega e teclado Com mais de 70 entrevistas e cinco anos de pesquisa, Em ritmo de seresta conta a história do brega no Maranhão. Nos anos 1960/70 as festas dançantes no estado eram animadas por bandas de baile com músicos/funcionários que tocavam o que tivesse na moda ou o que pedisse a estação.
Era a época dos grandes clubes sociais e dos carnavais de elite. Bandas como Os Fantoches, Nonato e seu conjunto e O Peso fizeram fama e dinheiro com pouca ou nenhuma produção fonográfica.
“Nos anos 1980 esse sistema de festas começa a entrar em crise, bandas começam a falir, clubes começam a fechar e uma geração inteira de músicos perde o emprego”, conta Azevêdo. Nesta época aparecem na cidade os primeiros teclados com bancos de memória capazes de reproduzir uma batida simples.
O teclado, produzido no Japão como instrumento infantil, de aprendizado, caiu nas mãos e na graça dos músicos maranhenses, que viram nele uma forma de permanecer no mercado.
Guitarristas, baixistas, bateristas e cantores desempregados (ou não) compraram um Casio e entrara no mundo da seresta, num movimento de reconversão em massa. O “beguine”, ritmo caribenho programado no teclado foi associado ao boleros e ao forró. Estava aberta a era da seresta com teclado.
Nos anos 1990 a festa de seresta ganhou o mundo do disco principalmente por conta da gravadora Gema, que junto com o produtor José Oniton levaram artistas como Júlio Nascimento (Leidiane), Evaldo Cardoso (Caminhoneiro do amor) e Lairton (Morango do nordeste) às rádios e corações do país.
Artistas consagrados como Adelino Nascimento também aderiram ao teclado e surge daí um verdadeiro movimento de música eletrônica maranhense capaz de vender milhões e discos, mesmo ignorado pela mídia hegemônica local.
Brega? Apesar de todo o sucesso e de uma boa parcela da população conhecer suas canções, os cantores de brega do Maranhão não são reconhecidos pelos meios de comunicação e demais instâncias de legitimação locais como artistas maranhenses.
Em ritmo de seresta demonstra como, ao longo das décadas de 1970/80 foi operada a construção do que se reconhece como a “canção maranhense legítima”, um isto de música MPBista com o folclore local.
A chamada MPM formata a música maranhense, relegando os cantores de brega e seresta, assim como as choperias a uma posição Marginal.
Fotos e discos Em ritmo de seresta inclui um ensaio com 33 fotos feiras pelo fotógrafo Márcio Vasconcelos ao longo de dois meses nas choperias de São Luís. Além de mais de 50 imagens raras coletadas por Bruno Azevêdo que ajudam a contar a história do brega local e texto de apresentação do cantor e compositor Zeca Baleiro.
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