Dos Deveres

Por Marco Túlio Cícero

Sobre o livro

A obra magistral de Cícero traduzida para o português, enriquecida com 10 ilustrações inéditas e 146 notas explicativas.

Entre os últimos escritos de Marco Túlio Cícero, o Velho, destaca-se o tratado De Officiis (Dos Deveres), redigido em 44 a.C. e dirigido a seu filho Marco Túlio Cícero, o Jovem. Nessa obra, o orador romano procura estabelecer princípios de conduta moral, especialmente voltados ao homem público, mas aplicáveis a toda a vida em sociedade.

Estruturado em três livros, o tratado parte da análise da honestidade como fundamento da ação ética. Cícero sustenta que a prática das virtudes — sabedoria, justiça, firmeza e moderação — é a base da vida honrada, ainda que, em certas situações, surjam aparentes conflitos entre elas.

O segundo livro volta-se para a noção de utilidade, compreendida como aquilo que traz benefícios concretos à comunidade.

Já no terceiro, o autor examina a possível tensão entre honestidade e utilidade, mas conclui que esse conflito é apenas aparente: o que é verdadeiramente útil jamais se afasta do que é honesto, sendo necessário distinguir o “útil real” do “útil aparente”.

Inspirado em parte no filósofo estoico Panécio de Rodes, Cícero vai além de sua fonte ao propor uma hierarquia dos deveres, na qual a honestidade prevalece sobre qualquer conveniência. Dessa forma, o tratado se estabelece como uma reflexão prática: não basta especular sobre a moral; é preciso orientar a conduta.

O contexto histórico de sua redação também é revelador. Após o assassinato de Júlio César, a república estava em ruínas, o Senado havia perdido poder e Cícero encontrava-se politicamente marginalizado.

Longe da vida pública, dedicou-se à filosofia, transformando sua formação grega em um recurso para pensar a realidade romana.

Embora tenha dialogado com diferentes correntes — estoicismo, epicurismo, peripatetismo e a Nova Academia —, foi na ética estoica que encontrou maior afinidade, especialmente no que concerne ao ideal de retidão cívica.

A influência de Dos Deveres ultrapassou a Antiguidade. Durante a patrística e a Idade Média, tornou-se referência para os pensadores cristãos, contribuindo para a formação do código moral ocidental.

No Renascimento, voltou a ocupar lugar central nas discussões humanistas, e no Iluminismo foi retomado como guia de conduta para a vida política e social.

Ainda hoje, em meio a debates sobre ética pública e corrupção, a obra conserva sua atualidade, pois propõe critérios universais para a ação justa e para a preservação da dignidade humana.

Assim, Dos Deveres é um testamento intelectual de Cícero, reconhecido como um marco na tradição filosófica ocidental, unindo o ideal romano de pragmatismo à herança especulativa grega e transmitindo às gerações futuras uma reflexão perene sobre a relação entre moralidade, utilidade e dever cívico.

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