Doce Anarquia

Por Caio Rodrigo Souza

Sobre o livro

“Ali, onde costumavam ficar a maioria dos alunos nos intervalos, só havia uma garota, talvez de sua idade, que lia um caderno de estudos sentada na fonte sobre uma das pernas. Era normal que nas provas finais os alunos não usassem uniformes, mas ele nunca tinha reparado nela.

Os cabelos, presos numa trança caída sobre o ombro, eram de uma cor que ele jamais viu, algo como um loiro-ruivo belíssimo.

Anos antes, na aula de religião sobre a Epístola de Tiago, chegou a discutir com o padre Cícero, reverendo, como é que aqui no capítulo cinco o ouro enferruja se na aula de química a gente aprendeu que isso é impossível?

É claro que ele sabia que era uma metáfora, porém, naquela época sua vontade era a do menino sádico que aperta um canário por entre as mãos, a vontade de esmagar a fé; mais uma gracinha, não é, senhor Mateus?, e ele sentiu um grande prazer com aquilo, mas agora via o próprio ouro enferrujado nos cabelos daquela aluna.

Com a camiseta regata que deixava à mostra os braços sardentos, o casaco enrolado na cintura sobre as calças jeans, e balançando o pequeno tênis All Star, inquieta, ela parecia ter uma beleza angelical, e era curioso que as asas da estátua de São Lourenço fossem a única sombra no pátio a se projetar sobre ela; mas desde quando São Lourenço tem asas?

Só então, Mateus viu que para além dos corredores do claustro, sobre o campanário da capela escolar, um urubu tomava Sol de asas estiradas, e eram essas as asas cujas sombras a envolviam.”

Os Nacionais finalmente vão tocar no Picadeiro Elétrico, palco mais badalado da cidade do Rio de Janeiro.

Entre cada canção, a banda relembra as dificuldades que enfrentou durante a jornada até ali, desde as disputas pelo prêmio no salão do Catacumbas na Tijuca aos dias complicados do Festival do Damasco em Santa Bárbara de Rio das Velhas.

Luana ainda se recupera da mudança de Minas Gerais para o Rio de Janeiro depois do divórcio dos pais; Emanuel tenta conciliar as crenças da sua família católica aos seus conflitos ideológicos; Maurício, apelidado de Funk pelos colegas da comunidade onde nasceu, enfrenta as disparidades da ascensão social de sua família; Guilherme suporta as brigas religiosas motivadas pela morte de um parente próximo; Mateus cuida de sua mãe doente após uma tragédia que parece condená-los para sempre, mas tudo muda quando avista Ana pela primeira vez diante do chafariz da escola.

O estilo em falsa terceira pessoa permite que o leitor veja cada cena através dos múltiplos pontos de vista. Nessa história, o leitor se sentirá na pele dos personagens enquanto lidam com viagens, derrotas, mortes, risos e alegrias, toda a incompreendida confusão ordenada do mundo.

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