DIAS A FIO

Por LUISA COSTA GOMES

Sobre o livro

Diz Florinda, a agente imobiliária, num desabafo de momentâneo desencorajamento: “Mas é isto, Palmira, dias a fio. Caves, grutas, poços, garagens, anexos em varandas, corredores, arrumos, estúdios ao rés-do-chão nas traseiras dos cemitérios.

Mortos de fome, desapossados, velhos sem nada, mulheres sozinhas com ranchadas de filhos. Não se consegue um negócio.

Os grandes arrebanharam os condomínios, os apartamentos, e nós ficamos a esgaravatar o fundo da gamela.” A colega Palmira contrapõe, optimista: “Mas o poço até está por um preço muito bom.” E Florinda, filosófica: “Pois que remédio, temos de valorizar o poço, é o que nos resta!”.

Estamos em Portugal, já se viu. São agentes imobiliários competindo pela comissão, intrigando, sonhando a sua Oportunidade Única para sair da corrida de ratazanas, e um deles é amigo de uma jibóia com quem aprende a rastejar e outra é uma que não dorme e que tem pena do seu próprio sofá.

E há um, claro, que vende ouro e seguros de saúde. E muitos outros, na corrida, sempre, sempre, dias a fio.

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