Deserto sozinha

Por Jeovanna Vieira

Sobre o livro

O Deserto sozinha tem vocação para diário de bordo de quem empreende grandes cruzadas, explorando sobretudo as paisagens internas. É possível acompanhar a personagem-narradora nascer, manobrar o tempo, percorrer territórios — sempre em busca de perguntas —, tendo a insatisfação como bússola.

O maior elogio à qualidade literária de Jeovanna Vieira é observar como a autora transforma qualquer leitor em passageiro de suas próprias agonias. Ao aderirmos essa incursão, sentimos alterar a temperatura, umidade e pressão à medida que os desertos se revelam.

A obra, de intensa dramaturgia, amplia os conceitos de solitude e questiona as companhias: o zoom out coloca o leitor, a personagem-narradora, os cenários, os seus coadjuvantes e a autora em perspectiva com o mesmo protagonismo dos fungos.

A geografia do texto expõe rupturas, valas, cânions, abismos e lapsos, ao mesmo tempo que aproxima o sentido da tundra, da savana, da estepe, das dunas, ou transforma em cena uma ida corriqueira ao supermercado do bairro. E o chão, esse que pisamos agora? Não será todo o mesmo deserto?

Não seremos todos um mesmo organismo? E não estaríamos todos irremediavelmente acompanhados e indubitavelmente sozinhos? A paisagem sonora sibila as percepções da autora nos 39 poemas.

Jeovanna Vieira espreita o vacilo do interlocutor para lhe morder no detalhe íntimo: seja na umidade da infância, na aridez de crescer, na transformação de uma filha em mãe, no assassinato de um deus mítico ou no ato contínuo de escavar.

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