Crixás

Por José Humberto da Silva Henriques

Sobre o livro

Estamos diante de uma construção esmerada dentro de toda a Literatura Universal. Esse romance poderia ser chamado de extrativista, isso se acaso houvesse uma nomeação desse porte para uma obra em prosa. O autor trata com grande delicadeza e amplitude de um tema rotundo em qualquer ponto do planeta.

Só que aqui, como o cenário é brasileiro e nele corre o rio Crixás-Açu e seu receptor, o rio Araguaia, o mais belo de todos os rios do mundo, Henriques forja um texto sui-generis.

Busca a interpretação máxima dessa região e deslinda – na verdade oferece o todo em bandeja de prata – todo seu amor por esse mundo incomparável.

A selvageria desse mundo acaba se consolidando na grandeza desses Tristes Trópicos, revolve as pechas de todos os tempos e acaba por emitir uma história que jamais foi escrita e jamais poderá ser repetida. Por isso, Crixás é fenomenal.

O romance Crixás foi publicado juntamente com o ensaio Araguaia – na verdade um poema-ensaio – devido à íntima relação entre os dois volumes. Ambos os volumes tratam de uma relação íntima do rio Araguaia com a dimensão de um universo plural.

Nada aqui nesse compêndio surge ou deslancha de maneira impune. A natureza com todas as suas perspectivas inventa novidades, sugere um sistema animista de diálogos do silêncio com tudo que pode ter cor ou possa se movimentar. Nesse romance, mesmo o vento adquire voz e palavra.

Além do mais, a presença do nhengatu, língua dos índios tupis, poderia dizimar a ideia de facilidade nesse romance. Porém, isso não vem ao caso. A língua enriquece demais o livro em todas as suas nuances. Quando surge, traduz-se automaticamente de acordo com o texto.

A verossimilhança disso com a identidade da lógica é imediata.

Embora o romance traga a atitude verossímil das personagens, com criaturas divagando e vagando entre as facções de um mundo mágico, Araguaia não conta com personagens. O que pervaga esse ensaio é a maneira da natureza se relacionar com o Nada.

O Nada esboça-se nesse silêncio contínuo e na magia de uma Estética elementar e simples. A presença de um Deus inaudito obriga o leitor a calcar sobre os próprios passos esse conceito de que a divindade pode existir, mesmo a partir da flor ou do espinho, tudo depende da eclosão da mirada.

Pois que o romance Crixás é uma derivação do ensaio Araguaia. Ambos deveriam ser estudados juntos, tudo em nome da compreensão e da lógica desse mundo soberbo.

Enquanto um busca a vazão da teoria divina, o outro lida com a ilusão telúrica de que no mundo há muita coisa que pode ser dada com além do sistema divino das verdades. Então, a dicotomia não pode ser feita quando se pena no romance e no ensaio.

Publica-se como ensaio o compêndio Araguaia porque é texto de estudo introspectivo das águas em sua essência mais íntima. Desde o espinho que desliza baixo e fere as pernas até a grande folha da palmeira que desafia o voo das aves mais longas, tudo se desenrola de uma maneira espectral.

A impressão que se tem é que esse romance busca os limares de William Faulkner, embora tal tradução não tenha liames literários conceituais. O que se deduz é que a margem da Literatura e da Estética aqui atinge seus segredos mais abscônditos.

Crixás, por outro lado, traz a intimidade essencial dos seres com as mesmas águas, de tal sorte que a elas imprimem a dinâmica do sentimento sob a forma humana. O espinho e a folha da palmeira passam a fazer parte de um pano de fundo onde se desenrolam ações humanas em seu sentido mais pleno.

Assim, conjuga princípio, meio e fim de tudo que pode ser tido como pressentido de forma razoável. Esta junção do homem com a natureza dá o título de romance a Crixás. Enquanto isso, Araguaia surfa como ensaio. Entretanto, isso tudo atinge mais planos que necessitam de estudo mais aprofundado.

Crixás trata da história da fêmea do boto (a bôta), que sai das águas em noites de luar com a finalidade de seduzir os ribeirinhos e algum índio incauto. Obra-prima. Esse livro é obra-prima.

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