Sobre o livro
Humberto Henriques se aproxima na realização de seus 400 volumes. Uma marca extraordinária e somente possível diante de um atributo único: a transpiração diante do que poderia mesmo ser chamado de laburo. Trata-se de uma obra ímpar e que parece não ter fim.
Ocorre que para tanto, evidente seja que o autor está em contínuo aproveitamento de seus processos mentais, já que a cada livro proposto as inovações não se deixam de fazer. Aliás, saltam mesmo aos olhos. Henriques traz mais esse volume que ele trata como crônicas.
Porém, não é mais uma vez apenas de crônicas que estamos a tratar. Aqui se enovelam as três faces desse sistema que poderia ser chamado de henriquiano, a forma de tratar a literatura de uma maneira extremamente aprimorada. A mistura se mostra aqui, por excelência é que se exibe.
O que começa com esse jeito aberto de ser crônica acaba por se confundir com o conto e mesmo com a amplidão do romance.
Enovelam-se os fatores todos que carregam o conceito de crônica, essa ataviada ao tempo dos acontecimentos, sendo mesmo eles taxativos em si mesmos e ficando como memória de uma ocasião, de uma década ou mesmo de um silêncio.
O autor aqui, tomado pela verve e pela recriação de tudo em que põe a mão e a pena, abre mais esse espaço e milita dentro do conto. Isso se faz de maneira muito sutil.
Contudo, o leitor que tem lente boa nos olhos e alguma perspicácia, percebe rapidamente que está a ser conduzido para fora da crônica e obrigado a mergulhar no conto e entrar pelas portas abertas do grande romance.
Quando isso se propõe a ocorrer, o criador retorna sobre suas próprias pegadas e entra novamente nesse círculo de êxtases e a demanda de tempo assume novamente o controle da situação abalizada. Beco dos Aflitos chega a ser um livro aproximado de memórias.
Interrogado sobre isso, Henriques confessa que nos tempos em que se transferiu para Uberaba para cumprir seus estudos, sua formação, viveu um tempo prolongado naquela região da cidade, o Beco dos Aflitos, muito embora não lhe frequentasse os corredores porque tinha, na época, apenas dez anos de idade.
Quem ler o livro vai entender bem as mudanças propostas para a área urbana. Os lupanares do centro da cidade iam sendo removidos paulatinamente sob a supervisão do olho grande dos eclesiásticos e sob a ocorrência do poder público municipal. Diante de tudo isso, a crônica de fez evidente.
Aqui estamos a florear o mundo com a pena magistral que sabe fazer a crônica, como nessa que se resume a um título curto, esse Adeus a Luís Crozara. Crozara desencarnou justamente por ocasião em que o escritor laborava nas páginas desse livro.
Como eram amigos e o acontecimento redundou em impacto para Henriques, aqui ele retoma a crônica que já ia dispersar em função do conto e mesmo do romance. O texto foi publicado nas páginas do Jornal da Manhã na mesma semana, isto é, no dia seguinte à morte do jornalista Luís Crozara.
Portanto, essa quebra de evolução do texto foi deveras um fato encunhado no livro.
Entretanto, apesar de tudo isso ser dito de forma muito clara, há que se considerar que essa decoada, essa mistura de gêneros – não de estilo, o estilo do escritor continua insubstituível, firme e resoluto – é trada de maneira proposital pelo escritor.
Como ele mesmo diz, isso já tinha sido feito quando publicou Geomorfosintaxe do Riso, um volume considerado mesmo como experimental por muitos críticos de arte.
Em Geomorfosintaxe do Riso Henriques ajunta a crônica, o romance, o conto, o ensaio, a poesia e a dramaturgia num único livro que acaba sendo publicado sob a égide do romance.
Sendo assim, essa proposta não é nova para o escritor e já vem sendo estimulada desde 1994, quando os seus primeiros romances vinham à luz do mundo., a exploração desse tipo de evento traduz a alma do escritor, a busca pela evolução e renovação nos corredores de To
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