BARACHO

Por Maria Dolores Wanderley

Sobre o livro

O romance de Maria Dolores Wanderley é um mergulho no conhecimento e no encantamento que ela carrega consigo com relação à sua terra. O Rio Grande do Norte, com suas praias sem fim e paisagens áridas e expressivas salta das páginas de encontro ao leitor para servir de cenário à história de Baracho, um personagem tão marcante que ainda hoje, décadas depois, é cultuado na região.

Baracho matou um homem em legitima defesa, mas isto não fez dele um marginal. Pelo contrário acentuou-lhe o desejo de viver, trabalhar, frutificar. Ele se perde e se acha ao longo dos caminhos e permite à autora construir um painel das relações entre os ricos e os pobres, entre os que têm tudo e os que nada têm a perder.

Elisa, uma menina sensível que transita entre a casa de praia perto de Natal e o seu interesse por crimes e pela página de notícias de polícia nos jornais, é outro personagem marcante.

Ela se intriga com o fato de ter avistado o fugitivo Baracho e, do alto de um pé de seriguela, tenta ver acima ou além das aparências. Seu pai e sua mãe não têm o alcance de visão da menina, que norteia sua vida em torno de se tornar uma defensora dos direitos humanos através da advocacia.

Para ser sincera e verdadeira, a ficção deve respirar como as gaivotas que sobrevoam o mar nas manhãs e nas tardes ou como o vento que embalança as folhas dos coqueiros e traz notícias de lá. No cruzamento entre os impasses e os encontros presentes nas relações humanas com o meio ambiente em que elas acontecem nasce o principal interesse desta obra.

Se precisássemos de uma classificação poderíamos dizer que o livro de Maria Dolores Wanderley é uma mistura de romance regional com um thriller no sentido de que a ação e a perseguição a Baracho nos

transmitem um clima de suspense e ao mesmo tempo nos permitem mergulhar numa natureza que, embora pareça indiferente às questões dos homens, acaba quase sempre por acolhê-los. Na praia, cada morador tem seu coqueiro que lhe fornece água fresca e alimento, sombra e poesia.

Personagens secundários vão, ao longo da narrativa, ganhando um protagonismo que os tornam expressivos e importantes para o desenvolvimento da ação. Um deles é o inspetor Alberto, encarregado das investigações e da prisão do fugitivo.

É um homem de bem cuja profissão difícil não o faz esquecer seus próprios valores éticos. Mariinha, mulher de Baracho é outra que batalha a vida com coragem para encontrar seu lugar.

João Baracho, filho de Joaquim, carrega as contradições de sua origem e a revolta que o leva a recusar caminhos pré-estabelecidos.

Mas nem tudo é paraíso no paraíso. Existem também intrigas, traições e interesses políticos e partidários que vão se avolumando como uma tempestade prestes a cair na praia.

Professora, poeta e contista, Maria Dolores nos mostra aqui uma outra face do seu trabalho. Quem se dispuser a percorrer estas páginas vai encontrar não só uma linguagem caprichada e fluida mas também algumas reflexões sobre a vida que, em qualquer latitude, é sempre a matéria-prima da boa literatura. (Elias Fajardo)

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