Sobre o livro
Descrição de BAILE DE LUZ, por Mirian de Carvalho (Trecho do Prefácio):
Tangenciando o universo das experiências humanas, a poesia de Cláudio Aguiar se lança à indagação sobre os desdobramentos do conhecer e do sentir, enredando-se na multiplicidade dos desdobramentos do logos poético. Nesses desdobramentos, surgem lugares onde o encantatório transcende o histórico, tal como na passagem do cometa Halley, quando, ao valorizar o registro onírico, o poeta sugere profunda reflexão sobre a passagem do homem pela Terra.
Captando transformações e passagens, aludindo à trágica experiência do tempo, Cláudio Aguiar entreabre uma visão do mundo concebido como espaço do atuar. Para “escrever” esse espaço, o poeta o concebe como lugar de expectativa, espanto e solidariedade.
E ao curso da dinamogênese poética, ele aquiesce ao ritmo da memória cadenciada por recursos fônicos, dentre eles, as rimas e as aliterações que se posicionam de modo apropriado no soneto, bem como em outras instâncias da forma fixa.
Observe-se, porém, que na poesia de Cláudio Aguiar a métrica posiciona-se como recurso fônico, enfatizando nos versos acentos dramáticos e oralizantes. Assim sendo, nessas opções de cunho sonoro e morfológico não há rigidez, nem passadismo.
Ciente das possibilidades da poesia contemporânea, Cláudio Aguiar adere a tais recursos para conduzir o poema com plena liberdade rítmica, chegando ao verso livre em “Desafio a Hípias”, poema que se posiciona ao fecho deste Baile de luz.
Conduzindo de modo sutil as tensões implícitas às imagens, Cláudio Aguiar realiza, então, uma unidade dialógica abrangente do conjunto de poemas. Ora lento, ora acelerado, ora moderado, na poética de Cláudio Aguiar o ritmo ocorre como captação do fugidio.
Ao reunir tempos distantes, toda memória faz-se contradição.
Assim, para surpreender as coisas que passam, ou passaram, ou para surpreendê-las enquanto devir, o autor recorre a paralelismos e inversões: recursos que, dinamizando a fala, retiram da linguagem o sentido linear próprio da comunicação efetiva.
E, à maneira de outros poetas, que, em diferentes momentos históricos, valeram-se de tais recursos para dinamizar a linguagem, tal como Camões, John Donne, Augusto dos Anjos, Cláudio Aguiar elabora e reelabora o andamento do verso.
Trata-se assim de uma incursão endobarroca, isto é, um posicionamento poético-ideativo não ancorado na estrutura do signo linguístico, nem no princípio lógico de identidade. Relacionado às Artes e à Literatura a partir dos alvores da Cultura Moderna, o endobarroco não se refere a estilo.
E, guardadas as diferenças históricas e culturais, tal posicionamento poético-ideativo estende-se aos dias de hoje, englobando sempre um desvio da linguagem linear.
No plano poético, esse posicionamento realiza-se através de sonoridades, através de imagens e de singularidades morfológicas, numa valorização dos sentidos implícitos à obra em detrimento do significado e dos referenciais que compõem os códigos linguísticos.
Nessa perspectiva, Cláudio Aguiar assume a dinamogênese da linguagem através de ritmos e de imagens que conectam diferenças e/ou contrários expressos, sobretudo por antíteses, paradoxos e oximoros, negando a ordem do conceito, posto que o poeta se lança à intensidade do poético por meio de uma dialética dos opostos, desconstruindo verdades pré-estabelecidas.
Suas imagens concentram jogos de oposições. Explicitam diferenças. Reúnem diversidades. Sua poesia torna-se campo aberto à reflexão. E desmistificação de verdades que podem inscrever-se até mesmo no dado histórico. Por isso, nos sonetos, bem como em outros poemas, não há fecho de ouro.
Não há conclusões retumbantes. Nos poemas, fluem imagens que solicitam interpretação. Recorrendo à memória das coisas, Cláudio Aguiar surpreende o fugidio. Na memória, o tempo plasma-se na água. E no fogo. E nas sombras. Na memória viva, encontram-se o eu e o cosmos.
E, ante o tempo em fuga, algo permanece.
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