As Histórias do Velho Matemático

Por Paulo H. C. Gonçalves

Sobre o livro

Dia de festa, na sala de espera, antessala do salão de audiências, três senhores aguardavam o momento em que seriam chamados para uma conferência particular com o príncipe estrangeiro, futuro governante da cidade.

Em determinado momento, a porta foi aberta e um secretário falou: – Senhores, agora falta pouco, em breve o príncipe os receberá. O secretário apanhou alguns papéis em um armário e desapareceu pela mesma porta em que entrou.

Por longo tempo, pesado silêncio tomou conta da antessala, até que um senhor de turbante negro falou para o homem que estava perto da porta e que usava roupas coloridas e extravagantes: – Desculpe-me a curiosidade, mas o amigo é algum artista?

O interpelado olhou confuso para o sujeito, sorriu e esclareceu: – Na verdade, eu sou um alto funcionário do palácio e recebo ordens diretas do grão-vizir. – E por que um alto funcionário se veste com roupas extravagantes?

O funcionário não se fez de rogado e respondeu prontamente: – É para atender ao pedido de um mendigo. Confuso, o homem de turbante negro coçou a barba e questionou: – E desde quando alguém presta atenção nas vontades dos desventurados da sorte?

Bem-humorado, o extravagante funcionário respondeu: – Se o amigo tiver paciência, eu lhe contarei como passei a atender aos desejos dos desqualificados, como resgatei um príncipe abobalhado e como o louco se transformou em outro homem…

O senhor de turbante negro declarou: – Um homem pode ficar louco, mas nunca deixará de ser o mesmo homem. – Amigo dos crentes, – pediu o senhor de idade avançada que até aquele momento mantinha-se calado – conte-nos a sua história. Ela é, para mim, por demais curiosa.

O extravagante funcionário olhou triste para a porta, que se mantinha fechada, sorriu para os novos amigos e falou de forma clara e consistente:

O auxiliar do Grão-vizir.

Muitas vezes, a vida se apresenta destituída de razão. O que esperamos não acontece e o que duvidamos se torna realidade… Mas o que fazer? Lutar contra os imprevistos é condenar-se à eterna decepção. Mais sabedoria demonstra quem escolhe adaptar-se às circunstâncias.

Sempre tive uma vida pacata, trabalhava como funcionário subalterno e pensava que terminaria os meus dias sem aventuras dignas de me glorificar o nome. Ledo engano. A vida nos surpreende e, quando menos esperamos, somos convidados para uma nova realidade.

A minha função era arquivar registros sem importância e controlar o movimento de objetos que não saíam do lugar. Às vezes, eu terminava o meu trabalho antes dos demais e passava horas em uma janela contemplando a imensidão.

Era uma saudade de alguém que eu não conhecida, de um lugar que nunca estive, de algo que eu não sei explicar. Um dia, o grão-vizir me chamou em seu gabinete e me disse: – O que falam os demais servidores a meu respeito?

Pego de surpresa com aquela pergunta, respondi: – Desculpe-me, senhor, mas não presto atenção nas conversas dos meus companheiros de trabalho. Fui criado acreditando que cada homem deve vigiar o próprio comportamento.

O grão-vizir me olhou de forma enigmática e voltou à carga: – E o que você sabe a respeito do futuro casamento da princesa? Desconcertado, respondi: – Muito pouco, senhor. Ele insistiu: – O quão pouco você sabe?

Tentei relembrar a última conversa que tive com o secretário, mas só o que conseguia foram fragmentos sem grande importância. Continua…

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