Amor, Poeira e Outros Absurdos: Peça Teatral

Por Xavier de Oliveira

Sobre o livro

Ambientada em um apartamento comum de Copacabana, Amor, Poeira e Outros Absurdos é uma comédia dramática que mergulha, sem concessões, nas contradições da vida íntima e na complexidade das relações humanas.

Isabel e Cristiano, um casal de classe média modesta, têm sua rotina abruptamente rompida por um assalto dentro de casa. Subjugados, amarrados e expostos a uma violência que ultrapassa o físico, ficam à deriva em um espaço que, até então, representava segurança.

Libertos das amarras, mas presos ao impacto do que viveram, aguardam a polícia enquanto tentam, inutilmente, reorganizar o ambiente devastado. O gesto de arrumar a casa torna-se simbólico: uma tentativa desesperada de reordenar também a própria vida. Entre móveis fora do lugar, objetos espalhados e silêncios incômodos, emergem conflitos antigos, acusações diretas e ressentimentos acumulados.

A partir desse ponto, a relação do casal se desdobra em camadas cada vez mais expostas. Isabel, incisiva e impulsiva, confronta Cristiano em sua passividade, questiona sua masculinidade e exige respostas que ele sempre evitou dar.

Cristiano, por sua vez, carrega uma fragilidade silenciosa, marcada por episódios depressivos e uma constante sensação de inadequação. A tensão entre os dois oscila entre o confronto agressivo e momentos inesperados de afeto, revelando uma dependência mútua que resiste até mesmo ao desgaste.

No centro dessa crise, surgem revelações que deslocam completamente o eixo da relação. Desejos ocultos, ambiguidades sexuais e experiências íntimas vêm à tona, rompendo qualquer ideia de normalidade previamente sustentada. O que poderia significar ruptura, no entanto, abre espaço para uma aproximação distorcida, onde o amor se manifesta de forma transversa, fora de qualquer padrão convencional.

Paralelamente, elementos externos intensificam o clima de instabilidade: telefonemas misteriosos, ruídos da vizinhança, a presença constante do outro — observado, imaginado ou suspeito. Tudo contribui para um ambiente de paranoia, exposição e desconforto contínuo, onde nada parece totalmente seguro ou compreensível.

Apesar do peso dramático, a obra constrói, de forma deliberada, momentos de humor que emergem do absurdo das situações. O riso aqui não suaviza — ele tensiona. Surge como reflexo da exasperação, da ironia diante do infortúnio e da incapacidade humana de lidar com o próprio caos sem recorrer ao deboche.

Amor, Poeira e Outros Absurdos é, acima de tudo, uma reflexão crua sobre o amor quando despido de idealizações. Um retrato de duas pessoas que, mesmo feridas, contraditórias e expostas em suas fragilidades mais íntimas, ainda encontram — de forma imperfeita e inquietante — motivos para permanecer juntas.

Entre a desordem material e emocional, a obra questiona: o que sustenta um vínculo quando tudo já foi revelado?

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