Sobre o livro
ALÉTHEOS: ANTES DO AMOR é uma tragédia contemporânea em forma de liturgia poética, um texto que atravessa as fronteiras do teatro, da metafísica e da psicanálise para revelar o que a humanidade teima em esconder: a infância é o primeiro tribunal onde todos somos julgados — e quase sempre condenados.
Ambientada no interior do Paraná, na década de 1990, a peça acompanha o nascimento e a travessia de um menino negro que chega ao mundo no lugar errado, sob a família errada e, sobretudo, sob o “deus” errado.
Alétheos abre os olhos no Salão dos Esquecidos — um salão de festa abandonado onde o bolo já está embolorado, os balões murcharam e o silêncio pesa como uma lápide. Ali, entre copos pela metade e restos de celebrações alheias, ele descobre que seu nascimento não foi um evento, mas um acidente.
E que a própria mãe o quis afogar antes mesmo que a vida tivesse tempo de chamá-lo pelo nome.
De um lado, o Coro do Inconsciente, que narra com compaixão e indignação a dor muda dos negligenciados; de outro, as Vozes, espectros familiares que o perseguem com o ódio hereditário dos que se recusam a amar.
Entre esses dois extremos, surge um mundo mítico que rasga o real: Oceânides, Erínias, a Ninfa Neso e o próprio Eterno entram em cena para revelar que por trás da aparência religiosa do lar de Alétheos existe um conflito mais antigo que o tempo — o embate entre dois deuses: Gharosh, o deus do medo, do castigo e do sangue, e o Eterno, o Deus que ama antes que o homem aprenda a merecê-Lo.
A peça desnuda os escombros da fé institucional, expõe o colapso espiritual do Brasil profundo e transforma a própria linguagem em rito: cada frase é uma ferida, cada imagem um espelho, cada personagem um reflexo da tragédia humana de nascer num mundo onde o amor quase sempre chega tarde demais.
Diante da ruína da família e da crueldade dos religiosos, Alétheos é chamado a ver o que ninguém vê: a nudez da religião que mata, da culpa que enlouquece, da família que abandona — e, em contrapartida, o milagre subversivo do amor que insiste em existir apesar de tudo.
Seu destino o colocará diante de uma escolha impossível: permanecer entre os deuses ou retornar ao mundo dos homens para tentar salvar o único que o amou — seu pai Klymenos, homem bom que se perdeu no labirinto da pobreza, do fanatismo e da depressão.
ALÉTHEOS: ANTES DO AMOR é uma obra para leitores que desejam mais que entretenimento: desejam ser feridos pela verdade. Uma peça para quem reconhece que o sagrado pode ser violência disfarçada, que o amor pode ser revolução e que a maior heresia da modernidade é ousar pensar — e amar — por conta própria.
Trata-se de uma tragédia visceral, filosófica e luminosa, que pergunta sem piedade:
E se o maior inimigo de Deus fosse justamente o deus que nos ensinaram a temer?
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