Adeus Lagoa de Velhos

Por Caio Padilha

Sobre o livro

Adeus Lagoa de Velhos é uma dramaturgia inspirada na vida e obra de Fabião das Queimadas – rabequeiro alforriado no Agreste Potiguar do final do séc. XIX.

Enquanto proposição cênica aberta e criativa, o texto com ilustrações originais de Marcos Guerra trata do misticismo brasileiro imantado pela força mítica do boi e um tal “aboiador rebelado” que é ao mesmo tempo submetido à opressão de um regime colonizador e desafiado pelas mudanças tecnológicas, culturais, econômicas e políticas da modernidade.

Para o autor Caio Padilha, “Fabião da Mão de Pau” é um personagem antropomórfico que, com sua rabeca, se coloca na interseção entre o poder e os oprimidos, entre a tradição e a contemporaneidade – procurando se afastar da folclorização de seus modos de vida.

A longa jornada de “vinte anos de atraso no tempo” para o personagem é uma metáfora das questões sócio-culturais brasileiras – pós-industrialização – quase sempre encaradas como problemas urbanos e portanto, não mais imbricados no universo do “rural arcaico”.

A condição de boi em que se encontra Fabião é ao mesmo tempo desumana e poderosamente presente no imaginário popular do “Brasil real” que este texto tenta evocar.

Nesta dramaturgia, o “boi da mão de pau” regressará à sua origem depois de duas décadas, em direção à civilização que se estabeleceu no mesmo lugar em que ele um dia viveu como “touro valente” e livre.

O homem-boi torna-se um elo dialético entre a realidade histórica e a formação do imaginário brasileiro na cultura popular.

Fabião da Mão de Pau – feito boi ou feito gente – precisará enfrentar a geração que sucede sua linhagem subjugada, substituindo-a por uma geração de “mãos de ferro” – totalitária.

Essa agonística geradora da trama se apresenta para discutir – entre outras coisas – o lugar da miscigenação na construção identitária no Brasil. Trata-se de um drama das continuidades e rupturas entre o mundo bárbaro e o mundo da tecnologia – entre o progresso e a alienação gestados desde o séc. XX.

O leitor perceberá portanto um forte sincretismo ideológico que trata desde a questão clássica do usufruto da terra (propriedade privada), até discussões sobre vanguardas artísticas pelo mundo (modernismo, vídeo-performance, culturalismo, etc.) – mas sempre com o intento crítico de, através da saga épica do herói movido pela fome, refletir sobre o convívio entre a tradição e a modernidade, tanto na arte quanto na sociedade.

Esperemos que diante deste texto, pessoas de teatro e artes integradas sejam capazes de iniciar uma investigação crítica da linguagem popular moderna e brasileira dentro do ímpeto criativo contemporâneo, simultâneo e globalizado.

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