Achados e Perdidos

Por José Henrique Sasek

Sobre o livro

Achados e Perdidos Sempre fiquei meio intrigado com a expressão achados e perdidos. Nunca entendi bem. Se está achado como pode estar perdido. Se está perdido é porque não foi achado. Esse dilema meio hamletiano sempre me pareceu um falso dilema.

Isso porque entendo que na vida vivemos essa realidade de sermos, ao mesmo tempo, achados e perdidos. Noel Rosa, o poeta da vila, ensina que “quem acha vive se perdendo” e eu, humildemente, acrescento que quem se perde vive se achando.

Tem momentos na minha vida que tudo dá certo, sinto-me inteiro, seguro, pisando num chão firme, caminhando com desenvoltura. Outras vezes experimento uma ruptura como se tivesse apartado de mim mesmo, e sem solo, não consigo caminhar. Nessa hora lembro Guimarães Rosa, “O correr da vida embrulha tudo.

A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem”. Nessa embrulhada o que me salva é uma noite de luar, como aquelas da minha infância quando ficava horas deitado no terreiro contando estrelas.

Um porto onde possa ancorar, pode ser físico, afetivo ou pessoal, como a casa dos meus pais e de tantos amigos.

O sorriso espontâneo de uma criança que quebra minha seriedade, um abraço apertado do amigo que aquece o coração e me dá a certeza de que não estou só, o beijo interminável da mulher amada que acende a paixão e faz brotar o amor. Uma música, um poema, uma dança.

Isso de salvar é uma profunda experiência humana, concreta e histórica que experimentamos cotidianamente. Somos seres incompletos e vivemos entre o já e o ainda não, entre o que realizamos e o que ainda nos falta conquistar.

Somos um constante vir a ser, sedentos de infinito, e nos desumanizamos quando nos apegamos às nossas certezas e crenças limitantes que nos aprisionam e estreitam horizontes. Tenho colecionado muitos achados e perdidos ao longo da minha vida.

Primeiro, ao nascer, quando libertado do cordão umbilical preso em minha garganta, encontrei olhares, vozes, sorrisos e colos que se multiplicaram em longos afetos que até hoje sustentam e dão sentido ao viver.

Achei meu nome, primeiramente na voz macia de minha mãe e depois meu pai e meus irmãos e tantos outros que me reconhecem pelo nome. Ter um nome foi o primeiro passo na formação da minha identidade. Aprendi desde então que sou cidadão do mundo, amado por um Deus criador que me conhece pelo nome.

E essa descoberta faz toda a diferença, torna o caminho mais leve. Encontrei minha cidade natal, no alto da serra com seus rios, vales e cachoeiras onde mergulhei minha infância, num tempo de muitos achados. Tempo onde aprendi a garimpar e colecionar tesouros.

O balbuciar das primeiras palavras, minhas garatujas, minha caligrafia imprecisa rabiscando palavras, tentando me traduzir. Abri as janelas, coloquei a cara no mundo e num misto de alegria, desejos, frustrações e medos, cresci. De lá pra cá me tornei peregrino de mim. Não tenho morada

fixa. Moro nos lugares que conheci, no coração dos encontros que tive, nas bocas que beijei, nas palavras que ouvi, nos alimentos que experimentei. Minha casa fica na rua dos achados e perdidos e é pra onde eu corro quando preciso de abrigo.

Lá me encontro, me refaço e recomeço seguindo inquieto pelos encontros e desencontros da vida. Levo nas mãos o que eu pude arrebanhar, nos olhos as paisagens do caminho, nos braços o suor da caminhada e o coração cheio de amores.

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